Sábado, 17 de Maio de 2014

Da matriz religiosa das touradas

Esta semana, o programa Prós e Contras da RTP1 voltou a abordar o tema da festa brava: "Touradas: Património ou Barbaridade?" Neste fórum, não pretendo pronunciar-me a favor ou contra as touradas, mas simplesmente evocar antiquíssimas celebrações festivas com touros, de carácter religioso, por toda a bacia mediterrânica e, o que mais nos interessa aqui, em Israel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um antigo culto mediterrânico

 

O touro é omnipresente na antiga religião mediterrânica, da Anatólia ao Egito, da Creta minoica à Índia, sem esquecer ainda os cultos de Mitra na Roma Antiga. Ele é considerado um animal divino, simultaneamente símbolo da lua, da fertilidade e do renascimento.

 

Na antiga religião israelita - que não deve ser confundida com o Judaísmo que se desenvolveu em Yehud (a província persa de Judá) após o exílio babilónico - o touro desempenhava um papel idêntico ao de outros povos mediterrânicos da época, a saber: para além da sua função ou uso sacrificial (cf. Levítico), estava também relacionado com o culto de algumas divindades (e, no caso concreto, com Javé; cf. 1 Reis 12).

 

"Israel, eis o teu deus que te fez sair da terra do Egito" (Êxodo 32, 4)

Em vários lugares da Bíblia Hebraica, evoca-se a apostasia israelita, consubstanciada na adoração do "bezerro de ouro" (cf. Êxodo 32; Deuteronómio 9; 1 Reis 12). Em 1 Reis 12 e Deuteronómio 9, particularmente, a polémica deuteronomista visa certamente esse antigo culto israelita, paralelo ao ugarítico. Em Israel, Javé seria adorado, provavelmente, como um deus da tempestade, do tipo Baal; e, tal como Baal, era representado pelo bezerro (sendo El, o chefe do panteão cananeu, muitas vezes evocado como o “Touro [adulto] El”). Aliás, nas montanhas de Manassé, perto de Dotan, foi precisamente encontrada uma estatueta de um bezerro em bronze, que poderia perfeitamente ilustrar esta realidade.

O capítulo 12 de 1 Reis parece indicar que era celebrada em Betel uma importante festa a Javé, "libertador do Egito", como seria bem expresso na formula litúrgica: "Israel, eis o teu deus [Javé] que te fez sair da terra do Egito". Os ecos dessa celebração, porém, seriam mais claros no episódio do bezerro de ouro de Êxodo 32.

 

"Amanhã haverá festa em honra de Javé" (Êxodo 32, 5)

Os exegetas dividem-se na interpretação desta passagem. Segundo alguns - e é a posição mais difundida -, haveria nesta passagem uma alusão ao contexto marcial da festa israelita. O bezerro de ouro seria o suporte ou pedestal da divindade invisível (mantendo-se portanto o carácter anicónico da religião israelita), que era levada em procissão, durante a qual se repetia a fórmula litúrgica acima invocada. E, à semelhança do que acontecia no Sul com a Arca da Aliança, o bezerro de ouro seria também transportado, como símbolo da presença da divindade, nas chamadas "guerras de Javé".

Outros, porém, veem nesta passagem uma paródia da festa da renovação da aliança do Reino do Norte, na qual a imagem do bezerro representava efetivamente o deus nacional (tanto de Israel como de Judá), Javé, pelo que seria uma autêntica apostasia no entender dos escritores sagrados do Reino do Sul (que são os que, finalmente, escreveram a Bíblia!).

Finalmente, Jack M. Sasson chama a atenção para a possível representação icónica do bezerro de ouro: é certo que, enquanto símbolo da fecundidade, poderia evocar o deus israelita como garante da fecundidade em Israel (cujo solo não era assim tão propício, como noutros lugares do levante), e ao mesmo tempo ícone ainda das celebrações desportivas que marcavam as festas litúrgicas, não só em Israel como nos vários povos da região (a que alude também a passagem de Juízes 16, 25).

 

"Com o meu Deus, saltarei sobre o touro" (Salmo 18, 30)

Desde o início do segundo milénio antes de Cristo, existem vestígios iconográficos, em várias culturas mediterrânicas, de celebrações festivas envolvendo jogos com touros, e nomeadamente o salto sobre o touro (ver imagens).

A esse tipo de jogos aludiria o Salmo 18, 30 (e o respetivo paralelo 2 Samuel 22, 30). Philippe Guillaume e Noga Blockman (ver infra) demonstraram, recentemente, que as traduções correntes não respeitam o sentido original da raiz hebraica, que remeteria para o animal (touro) e não para um hipotético "muro" ou "muralha". A ser isso verdade, estas passagens bíblicas mencionariam os jogos taurinos que aparecem em inúmera iconografia da área mediterrânica (Dijk 2011), e fariam luz sobre a festa mencionada em Êxodo 32, na linha da interpretação de Jack M. Sasson (Russel 2009).

 

Para aprofundar: Renate M. Van Dijk, The Motif of a Bull in the Ancient Near East: An Iconographic Study, dissertação de Master of Arts, University of South Africa, 2011. Philippe Guillaume e Noga Blockman, "By my God, I bull leap (Psalm 18:30 // 2 Samuel 22:30)" [2004], in www.lectio.unibe.ch/04_2/HTML/guillaume_blockman.htm (consultado em 13/05/2014). Stephen C. Russell, Images of Egypt in Early Biblical Literature, Berlim, Walter de Gruyter, 2009.

 

Porfírio Pinto

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 00:02
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