Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Do relvado à mitologia

Foto retirada daqui

 

Poucas dimensões como o desporto conjugam tão bem a superação da espécie com o clamor do inexplicável.

“Deus dá a quem merece”, disse Pelé na entronização mediática do “melhor jogador de futebol do mundo”. E enquanto Ronaldo recebia a coroa da glória, ecoava ainda nas avenidas mediáticas o grito do derradeiro adeus a um homem elevado à categoria de herói, um herói transformado em mito.

 

Numa semana cinzenta e tempestuosa, projetou-se um astro-rei na “mitologia de um povo” (1), comunicador na emoção dos estádios, na arte da competição. “Honra e glória”, clamou o pregador na missa de exéquias levado por um texto de Ben-Sirá que anunciava as virtudes e a dignidade dos especiais. Aqueles que, em contexto profético, sondavam e louvavam a Sabedoria.

Retomem-se as narrativas clássicas, onde os feitos do homem eram técnica e ação divina, porque o homem nem tudo controla. Assim se fizeram os heróis-atletas do Olimpo, “compreendido o processo de «heroicização» como a assimilação de uma história real (ou tida como tal) ao arquétipo de uma história mítica” (2). Com técnica e dedicação, também paixão, entravam na galeria dos mitos. A superação dos limites, a honra das vitórias, era mais do que trabalho. Era escolha e “destino” para fazer da glória dos homens a vontade dos deuses. Por maior que fosse a intencionalidade humana, a competência técnica, esta nada era diante do “destino”. Mas o “destino” não esquecia os "derrotados", transformados com Homero também em "heróis" pela força do empenho e da fidelidade.

A competição desportiva não depende somente do esforço e da virtude - arete. Está no domínio das regras, da competência técnica e tática, conjugadas com o imprevisível. Por isso pode ser frustrante a emoção depositada num jogo de futebol. «A técnica, mais determinante, faz parte da preparação do atleta. A imprevisibilidade não é do seu domínio» (3). Por isso, um rasgo de grandeza, um sprint fora de tempo, um ímpeto inesperado, com arte ou no acaso, fazem a diferença quando menos se espera. A ciência e a razão hão de explicar o seu mecanismo. Mas «o "sobre-humano" conjuga-se também com a surpresa do imprevisível, e, nesta luta, individual ou coletiva, pela superação, constroem-se narrativas míticas» (4), de fé e superstição. O futebol preenche os padrões de uma quase religião, com sinais e significados, da envolvência dos estádios ao sacrário do balneário. A experiência dos Jogos Olímpicos é ainda mais flagrante em símbolos, liturgia e rituais próprios. «Em contexto religioso, o acaso pode ser ocasião. Em ambiente de competição desportiva, o vento, o sol, a chuva, os poucos milímetros do poste numa baliza ou a pegada de um salto em comprimento podem fazer a diferença entre a coroa da vitória e a resignação da derrota» (5).

Este é o deslumbramento maior do futebol. O suspense, a tensão, a pressão e a competência, aliadas à imprevisibilidade. Um jogador “entronizado” pelos fãs é um moderno símbolo homérico. Foi assim com este herói dos relvados, entronizado na comoção popular. A memória dos adeptos, os símbolos numa camisola ou numa estátua, hão de revelar o que vale este homem e o mito com ele criado. Como quem revê e se revê na história, lembrem-se ainda os primeiros heróis-atletas dos jogos pan-helénicos. “Tinham a uni-los um aspeto que pode auxiliar a compreender a necessidade da sua mitificação: o facto de as suas cidades atravessarem, nos anos da vitória ou quando a história foi retomada, situações de crise interna ou externa” (6).

Afinal, mais do que explicar origens (M. Eliade), o que é um mito senão o reflexo e a imagem projetada da verdade de um povo em narrativas gloriosas (J. Fonterose ou W. Burkert) de feitos inexplicáveis ou incompreendidos, de deuses e heróis humanos? 

 

(1)   Pe. Vitor Melícias, homilia na missa fúnebre de Eusébio

(2)   (6) Martins de Jesus, Carlos A., O sentido: entre o humano e o divino, o atleta olímpico grego como herói, in Olímpico - Os jogos num percurso de valores e de significados (coord. Paulo Mendes Pinto), Afrontamento, 2013

(3)   (4) (5) Franco, Joaquim, A celebração planetária, in Olímpico - Os jogos num percurso de valores e de significados (coord. Paulo Mendes Pinto), Afrontamento, 2013

 

Sugestões de leitura: Eusébio Enciclopédia (Zebra Publicações), de Afonso Melo; (E)ternamente Eusébio (Quidnovi) de João Malheiro; O Estado Novo e o Futebol (Prime Books), de Ricardo Serrado.

 

Por: Joaquim Franco

Publicado por Re-ligare às 15:34
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