Segunda-feira, 16 de Março de 2015

Música e Emoções - Romantismo, Fisiologia ou Semelhança?

 

Como estabelecer a natureza das nossas respostas emocionais à música? É a nossa resposta meramente fisiológica? Assenta numa conceção romântica? Faz sentido responder emocionalmente à música?

Será o estabelecimento da relação existente entre a música e as emoções humanas central no campo da filosofia das artes?

Sendo a música definida como a arte de exprimir sentimentos e impressões por meio de sons, através dessa combinação de sons, a alma do Homem é expressa, revelando-se através de sete emoções. Numa perspetiva objetiva e de real importância, estão teorias da psicologia e da neurociência, representadas por Daniel Goleman e António Damásio. Estas mostram-nos que as emoções são biológicas, físicas, e não um produto de abstração.

Segundo Paul Ekman, as emoções básicas, inatas no ser humano e transversais a todas as culturas, são sete: Tristeza, Alegria, Medo, Aversão, Surpresa, Desprezo, Raiva. Acreditamos que elas estão para o corpo como as sete notas estão para um instrumento musical. A observância das notas musicais ajuda-nos a saber “tocar” as “notas” dos nossos corpos; as emoções, num generoso contributo que visa a sua própria compreensão e libertação.

Ao darmos significado às emoções, reconhecemo-las enquanto possibilidades de vida, conservação, desenvolvimento, realização de interesses e tarefas que estas nos oferecem, afirmando assim a não predominância do racional no ser humano. Do mesmo modo que ao não darmos significado às emoções, restituímos a razão como característica dominante do Homem, que lhe permite a ordem, a harmonia e a perfeição.

Quando dizemos que a música é concebida tanto para provocar como para exprimir ou representar emoções definidas, como estabelecemos essa relação? Ou seja, onde nos baseamos para afirmar que as emoções são o conteúdo e o objeto da música? Em respostas emocionais à música? Numa explicação fisiológica?

Devemos questionar se a música tem a capacidade de provocar em quem a ouve, emoções definidas, ou se um compositor pode através dela, exprimir emoções igualmente definidas. De acordo com livro, o Do Belo Musical, um trabalho de 1891, redigido pelo crítico musical alemão Eduard Hanslick; a música não pode provocar, nem tampouco exprimir emoções definidas.

Segundo Hanslick, as emoções têm um elemento intencional, ou seja, um conteúdo que envolve estados mentais, assim sendo, a música não pode provocar emoções definidas pois não estabelece uma relação causal com emoção provocada no ouvinte, uma vez que ao escutarem a mesma música, pessoas diferentes podem reagir com emoções diferentes.

Além disso, de acordo com Hanslick, a música absoluta não dispõe de uma linguagem adequada para representar estados mentais sendo por isso que p.ex. uma crença ou o desejo não podem ser representados por meio de sons sem significado.

No entanto, como explicamos o fato de sermos emocionalmente afetados pela música? Qual é o processo que está aqui subjacente? Como esclarecemos a natureza da experiência emocional que a música nos proporciona? Bastará a este respeito tomar em consideração uma explicação de natureza fisiológica? Ou antes, argumentarmos que este não é um problema filosófico? Qual a chave de resposta que pode dar por concluída esta questão?

Do ponto de vista da física e da biologia:

Ouvimos sons em virtude de vibrações que são conduzidas através do ar. A orelha funciona como uma concha acústica, que capta os sons e os direciona para o canal auditivo. As ondas sonoras por sua vez, fazem vibrar o ar dentro do canal do ouvido e a vibração é transmitida ao tímpano. Esticada como a pele de um tambor, a membrana timpânica vibra, movendo o osso martelo, que faz vibrar o osso bigorna, que por sua vez, faz vibrar o osso estribo. Esses ossículos funcionam como amplificadores das vibrações. A base do osso estribo conecta-se a uma região da membrana da cóclea denominada janela oval, e fá-la vibrar, comunicando a vibração ao líquido coclear. O movimento desse líquido faz vibrar a membrana basilar e as células sensoriais. Os pelos dessas células, ao encostarem levemente na membrana tectórica, geram impulsos nervosos, que são transmitidos pelo nervo auditivo ao centro de audição do córtex cerebral.[1]

Podemos concluir dizendo que, as vibrações, na forma de ondas sonoras, são transformadas em impulsos nervosos e levadas ao cérebro que as interpreta como espécies diferentes de sons que levam, de algum modo, à experiência de alguma emoção. Mas, será tal explicação suficiente?

O filósofo norte-americano Paul Boghossian, no seu artigo “Explaining Musical Experience” (2007), respondeu negativamente a esta questão. Porque se torna insuficiente uma explicação fisiológica? Na realidade, porque parece haver algo mais do que uma simples reação fisiológica na nossa experiência musical, esta não pode ser reduzida meramente a reações corporais.

Segundo Boghossian, precisamos de uma explicação da racionalidade e não da fisiologia, no que concerne às nossas respostas emocionais à música. Este autor, assenta a sua explicação na sugestão de que a explicação fisiológica demonstra que música induz estados emocionais, no entanto, ser afetado pela música não é apenas uma questão de determinar o tipo de reação química que ocorre no corpo do ouvinte.

No contexto da música, como se daria a explicação racional de tais respostas?

Clive Bell um dos defensores mais proeminentes do formalismo na estética, aponta-nos uma nova perspetiva, através da qual se pode defender que a música desperta um tipo especial de emoção: a emoção estética.

De acordo com Hanslick, ideia de que a música tem um significado expressivo é inaceitável, posto que a música não é capaz de representar estados mentais como crenças ou pensamentos, não fazendo sentido existir uma reação emocional como resposta à música, uma vez que esta é incapaz de dizer-nos coisas que tenham significado. Do ponto de vista de Hanslick, a música não pode exprimir emoções em virtude de não poder representar os estados mentais que estão ligados a elas.

A experiência quotidiana revela a qualquer um de nós que, mesmo que a música não possa dizer-nos coisas que tenham significado, a verdade é que continua a haver um aspeto racional nas nossas respostas emocionais a ela.

Da mesma forma que para podermos concebermos a representação de um qualquer objeto, necessitamos apenas do acesso a alguns aspetos do objeto representado, para que uma música consiga expressar ou representar uma emoção, será realmente necessário, que seja capaz de expressar os estados mentais nela envolvidos? Acreditamos que não.

Embora a música e as emoções humanas sejam objetos de natureza tão distinta, por analogia o reconhecimento de emoções consegue ser estabelecido, através da representação de sequências de sons de uma música que nos conectam com outros aspetos reveladores dos estados mentais ligados a estas mesmas emoções. Aspetos estes que nos permitem que reconheçamos de que emoção se trata.

De um ponto de vista pessoal, acreditamos que capacidade da música para exprimir emoções reside no fato de algumas das suas propriedades partilharem semelhanças com algumas características das emoções. Tais características podem ser de dois tipos:

 

1. Comportamental: p. ex. o modo como as pessoas falam e se comportam quando estão de posse de um determinado estado emocional

2. Psicológica: p.ex. a maneira como sentimos a passagem do tempo aquando da presença de alguma emoção.

 

Para a compreensão da ponte entre música e emoções, que estabelece a natureza da nossa resposta emocional à música, é importante esclarecer três conceitos básicos acerca da mesma, a saber:

  1. Andamento: As indicações de andamento são as que estabelecem a velocidade na qual será tocada a música. Os termos geralmente utilizados são sete (como sete são as notas musicais, ou as emoções básicas do ser humano, segundo Ekman): lento, larghetto, adágio, andante, allegro, presto, prestíssimo. Ao longo da peça, o andamento pode mudar, e para designar tal mudança são utilizados termos, como accelerando, stringendo, rallentando.
  2. Dinâmica: As indicações de dinâmica são as que determinam o volume ou a intensidade sonora. Os termos utilizados com este intuito são: pianíssimo, mezzo piano, mezzo forte, fortíssimo, sforzando. Portanto, dinâmica é a propriedade de um som ser mais forte ou fraco.
  3. Altura: Diz respeito à propriedade de um som ser mais grave ou agudo.

 

Mas para além do exposto, que assenta em estados emocionais de fácil identificação e evidência, que dizer do caso de aspetos comportamentais e psicológicos de pessoas que estão de posse de estados emocionais não tão evidentes como os resultantes de emoções como p. ex. a tristeza ou a alegria? O que dizer de emoções de natureza mais complexa? Como ultrapassamos ao nível da representação musical de tais emoções, aquilo que parecem ser limitações cognitivas no que concerne ao estabelecimento preciso das características comportamentais e psicológicas suscitadas por tais emoções?

Pode estas ser representadas musicalmente? Serão emoções como a inveja, o orgulho, o remorso ou vergonha, representáveis através da música?

No caso destas, há como que uma regra geral intuitiva a respeito dos seus aspetos que têm um análogo tonal em virtude das propriedades dinâmicas das músicas.

Sabemos que diversos fatores influenciam as nossas respostas fisiológicas e psíquicas à música, sendo fulcrais aspetos tais como, a capacidade particular de perceber e ouvir, a educação, a cultura, a situação social do momento, mas a conclusão a que chegamos é a de que, a capacidade da música para exprimir emoções, reside no fato de algumas das suas propriedades e caraterísticas partilharem semelhanças com algumas características das emoções, sendo a problemática do estabelecimento da relação existente entre a música e as emoções humanas fundamental no campo da filosofia das artes.

 

Bibliografia

Heilman, KM, Bowers D, Valenstein E, Watson RT. The right hemisphere neuropsychological functions. J Neurosurg, 64:693-704, 1986.

Sergent J. Music, the brain and ravel. Tins, 16(5):168-72, 1993.

Lauter JL, Herscovitch P, Formby C, Raichle ME. Tonotopic organization in huma auditory cortex revealed by positron emission tomography. Hear Res, 20:199-205, 1985.

Muszkat, M, Correia, CMF, Noffs, MHS, Vincenzo, NS, Campos, CJR. Especialização funcional hemisférica na afasia motora. Arq Neuropsiquiatria 53(1):88-93, 1995.

Wieser HG, Hungerbuhler H, Siegel AM, Buck A. Musicogenic epilepsy: review of the litterature and case report with ictal single photon emission computed tomography. Epilepsia, 38:200-7, 1997.

Zifkin BG, Zatorre RJ. Musicogenic epilepsy. Adv Neurol, 75:273-81, 1998.

Boghossian, P. Explaining Musical Experience. In Stock 2007

d'Aversa , Rafael A. Música e Emoção, 2010

Campos, Dinorá, Emoções 2011

Budd, M. Music and the Communication of Emotion. The Journal of Aesthetics and Art Criticism, 47.2, 1989

Budd, M. Music and the Emotions. Nova Iorque: Taylor & Francis e-Library. 2003

Carroll, N. Philosophy of Art. Nova Iorque e Londres: Routledge. 1999

Hanslick, E. Do Belo Musical. Trad. A. Mourão. Lisboa: Edições 70, 1994

Matravers, D. Expression in Music. In Stock 2007

Stock, K. org. Philosophers on Music: Experience, Meaning and Work. Nova Iorque: Oxford University Press. 2007

 

 

Danuia Pereira Leite

 

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 15:28
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