Sábado, 13 de Dezembro de 2014

Neurociência – Música e Emoções

A música, mais do que um som, é a tradução de sentimentos humanos. A pergunta que se impõe e que se perde na noite dos tempos, é como descobriu o ser humano que a música, enquanto combinação de sons pode ser a expressão da sua alma?

Não sabendo explicar a natureza da música, o homem procurou responder a esta pergunta, considerando-a uma dádiva dos deuses. A associação quase universal entre a música e as emoções parece dever algo à contra-reforma, em particular nas decisões tomadas no Concílio de Trento (1545-1563), de restringir os “excessos” dos compositores no que diz respeito ao uso da polifonia.

Santo Agostinho demonstrou a sua preocupação em que os prazeres da música, distraíssem a mente do conteúdo representacional dos textos litúrgicos; reconhecendo no entanto, que os textos cantados exerciam um efeito muito maior do que se apenas lidos. Nos finais do séc. XVI, a Camerata (grupo de teorizadores florentinos que estabeleceu os fundamentos da ópera primitiva) fundamentou que a música devia representar adequadamente as emoções que o texto exprimia. A teoria imitativa platónica, segundo a qual a música representa emoções imitando o discurso e os movimentos corporais, ganhou predominância.

Como Platão fizera na “República”, os teóricos da igreja sobrestimaram as qualidades emotivas da música, ao mesmo tempo que suspeitavam dos prazeres da música quando esta deixa de ser meramente funcional ou ilustrativa. Tendo considerado que esta apelava sobretudo às emoções e não à razão, havia que refrear a música, fazendo-a evocar emoções “corretas”, através da austeridade estética.

A ideia moderna, expressionista de uma relação especial entre a música e as emoções mantém a dicotomia entre razão e emoção com uma sobrevalorização desta última.

Tanto na “República” de Platão, como na “Cidade de Deus” de Santo Agostinho, a boa música funciona como uma metáfora da cidade bem ordenada. O romantismo preservou a ênfase nas emoções e trocou a cidade do bem ordenado pelo indivíduo desordenado.

Perguntamos, o estado emocional de um indivíduo determina a forma como ele percebe o mundo? O que tem a dizer sobre isto a neurociência?

A música é a única arte que é em simultâneo, completamente abstrata e profundamente emocional. Apesar de no contexto ser incapaz de representar um objeto exterior ou interior, tem ainda assim a capacidade poderosa e única de expressar estados intelectuais ou até mesmo sentimentos.

Comove-nos quando nos toca diretamente o coração exprimindo sentimentos sem necessidade de mensuração. É paradoxal quando em simultâneo nos faz mergulhar num universo de dor, presenteando-nos com consolação e alívio.

Tem a real capacidade de nos sintonizar com o nosso estado de espírito.

A música dirige-se à dualidade da nossa natureza, levando-nos a tomar consciência do seu aspeto simultaneamente emocional e intelectual.

A neurociência da música centra-se em mecanismos emocionais, nos quais somos perceptores da melodia, do ritmo, altura ou intervalos; no entanto, a fruição dos aspetos afetivos da música, conduz-nos a uma ligação entre psicologia e neurociência. O equilíbrio reside no ouvido crítico que estabelece a ponte entre a correção técnica e a emoção numa perfeita conjugação de beleza e estrutura formal da composição.

Robert Burton na “Anatomia da Melodia”, descreve pormenorizadamente os poderes da música, da mesma forma que John Stuart Mill refere que apenas a música tem o poder de resgatar de estados de anedonia ou melancolia.

Utilizando os termos de Styron, a música “trespassa-nos o coração” quando mais nada o consegue tocar; libertando em nós uma cascata de imagens, sentimentos ou recordações. Misto de alegria e de catarse, o poder da música chega até nós e invade-nos sem que disso tenhamos uma premeditação consciente. Indo para além do alcance das palavras, de um modo misterioso e caprichoso, produzindo o seu efeito, proporcionando-nos um reconforto profundo, invadindo-nos como uma bênção ou uma graça inesperadas, qual “impulso criador que tende para a libertação”, para usarmos a expressão de E. M. Foster.

Se considerarmos que a musicalidade pode ser entendida como inata, a sensibilidade emocional em relação à música, baseada em capacidades preceptivas e cognitivas, já se reveste de uma maior complexidade pois é fruto da influência de fatores neurológicos e pessoais, conduzindo-nos a uma experiência na qual mecanismos de apreciação e aspetos estruturais e emocionais se manifestam de forma variada e por vezes, até mesmo divergente; dependendo da pessoa em si mesma.

Linhas de investigação tais como as de Blood e Zatore (artigo de 2001), revelam-nos a existência de uma vasta rede que envolve as regiões corticais e subcorticais na base das respostas emocionais à música.

Isabelle Peretz, pensa existir “uma arquitetura funcional particular, subjacente à interpretação emocional da música”. A resposta emocional à música pode ter uma base psicológica própria, distinta e específica, na qual assentam de um modo geral as reações emocionais.

A música faz parte do ser humano e não há cultura em que esta não conheça um desenvolvimento eminente ou não seja estimada. A música para a espécie humana, não é um luxo mas antes uma necessidade, porque nos devolve a nós próprios e aos outros, ainda que por vezes, como no caso de patologias de foro psiquiátrico, que por um só momento. A perceção da música e das emoções que esta suscita, não depende apenas da memória, e a própria demência não diminui a profundidade da experiência emocional, pois continua a existir um self, que pode ser interpelado e a quem apenas a música pode falar.

A música pode chamar as pessoas a muitos níveis, entrar nelas, alterá-las, sendo isto um acontecimento tanto em pacientes dementes como em todos nós. A extraordinária robustez neuronal da música é uma evidência.

 

Danuia Pereira leite

 

Referências Bibliográficas

«Ao encontro de Espinosa», Damásio, António, Publicações Europa-América, 2004;

«O livro das Emoções», Esquível, Laura, Asa 2011;

«Molecules of Emotions», Pert, Candace, Pocket Books, 1997;

«Inteligência Emocional», Golman, Daniel, Sábado, 2006.;

«Musicofilia», Sacks, Oliver, Relógio D’Água, 2007

 

Publicado por Re-ligare às 12:13
Link do post | Comentar | Favorito

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds