Sábado, 19 de Abril de 2014

Religião, conflitos e paz na Europa – e as eleições europeias, de que nada sabemos

                

Entre leituras recentes – e a propósito das eleições europeias, que se aproximam e da situação na Ucrânia, que se agiganta como mais uma das faces trágicas do rosto de muitos conflitos do Velho Continente – dei comigo, uma vez mais, a cruzar raciocínios; partilho-os porque convergem na linha de investigação que desenvolvo e porque ao fazê-lo em voz alta sei que não ficarei sozinho.

Tudo começou com a leitura de Pierre Chaunu e Les Temps des Reformes, um clássico. Chaunu ultrapassa a visão de uma Europa saída da batalha sangrenta que opôs a reforma protestante à contra reforma católica para definir, mais atiladamente, todo o período a que chamamos Idade Média, Renascença e Barroco como um único longo tempo de Reformas.  Assim, Chaunu passa por cima das duas reformas – que acabaram por “apaziguar-se”e reconciliar os seus oponentes, que viram quão disparatado era o seu caminho de raiva e dissipação – mas para identificar, sem seu lugar, quatro, a saber: a reforma da Baixa Idade Média (entre os séculos XI e XIV, direi eu: quem se lembra dos goliardos, clérigos pobres, vagabundos, de espírito transgressivo e provocador, e das Carmina Burana, por exemplo?); a protestante (luterana e calvinista); a católica, saída da protestante, por assim dizer; e a dos anabatistas, unitários e outros “heterodoxos”.  A verdade é que a Europa que hoje conhecemos nasce desse mosaico. A própria designação Igreja Católica só aparece com o Concílio de Trento (realizado, com intermitências entre 1545 e 1563) e tem uma nova dimensão, e apenas, no Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965 que, por assim dizer, pôs ponto final à chamada contrarreforma católica. Na Europa, talvez com a exceção da Bósnia e da Herzegovina , a Guerra no século XX deixou de ter um cariz marcadamente religioso ( e mesmo assim, a chamada Guerra da Bósnia começou em 1992 causada por uma combinação complexa de fatores políticos e religiosos: o fervor nacionalista, as crises políticas, sociais e de segurança que se seguiu ao fim da Guerra Fria e a queda do comunismo na antiga Jugoslávia) - e os grande centros cristãos, católicos, ortodoxos ou protestantes, apaziguaram-se com o passar dos tempos e a maturidade dos mesmos. Hoje, por isso, a Europa assiste a um catolicismo dinâmico – com Francisco -, a uma Igreja protestante próspera e aquietada, atenta, na Alemanha, na Suíça, na  Holanda – a uma igreja ortodoxa no coração da crise (na Grécia e na Ucrânia). As igrejas, independentemente das suas confissões, são hoje menos causa e mais reflexo. Na atualidade, são pormenores dos muitos problemas do mundo globalizado. Mas, no Velho Continente, têm características – e comprometimentos sem comparação. O universo católico não se limita ao ramo latino, o mais conhecido. Tem as suas raízes em duas dezenas de Igrejas Católicas Orientais (a Igreja que melhor conhecemos em Portugal é a Católica Romana, também dita Católica Apostólica Romana, uma Igreja que representa cerca de metade de todos os cristãos, que está presente em duas centenas de países e é um dos aspetos das suas culturas). O catolicismo expressa-se em seis diferentes ritos litúrgicos: o latino e cinco orientais. O rito latino é o mais numeroso e predomina no Ocidente, embora com variantes. Nos ritos orientais temos o Caldeu, cujo grupo mais significativo é o dos caldeus malabares, da índia; o Antioqueno cuja força maior residia nos maronitas do Líbano e nos Melquitas da Síria, Líbia, Palestina e diáspora e que nos últimos dois anos sofreram perseguições, matanças e exílios forçados que a História ainda não consegue interpretar. As Igrejas Católicas Caldeias, de que estes grupos fazem parte, pertencem à cristandade Sírio-Oriental, de tradição pré-efesina, com comunidades na Síria e no Iraque, sendo o grupo mais numeroso o da Igreja Sírio-Malabar, na Índia. Curiosamente, estes cristão autodenominam-se Saint Thomas Christians, isto é, reivindicam a herança apostólica de Tomé. Acresce ainda o grupo Alexandrino, maioritariamente de coptas católicos do Egito e os católicos da Etiópia. E ainda o católico armeno, da Arménia, e praticado entre os seus muitos emigrantes, nos demais continentes.

Mas de todos estes e entre os ritos orientais, destaca-se o principal de todos: o Bizantino. A sua base étnico-cultural é formada pelos católicos ucranianos e russos, radicados na Ucrânia ou na diáspora. Estas igrejas são conhecidas como grego-católicas e pertencem ao grupo das Igrejas calcedonianas e são autocéfalas: os Melquitas dos patriarcados de Antioquia, Alexandria e Jerusalém; os Ucranianos do Arcebispado de Lemberg (Lwów para os ploacos, L´viv para os ucranianos e L´vov para os russos), unidos a Roma desde a União de Brest (1596); a Igreja Católica Oriental Romena da Metropolia de Alba Julia; a Igreja Oriental Católica Búlgara do Exarcado Apostólico de Sofia; os grego-católicos da Sérvia, Macedónia e Croácia; os Ítalo-albaneses orientais com diocese na Albânia e no sul de Itália: Lungro (Calábria), Piana (Sicília) e a Abadia Nullius de Grottaferrata; os Ritenos na República Checa e na Eslováquia.

Uma das coisas que mais me surpreendeu no Lavra – Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, Kiev, Ucrânia que visitei várias vezes, em circunstâncias muito diferentes – foi a importância que os russos, tanto ou mais que os ucranianos, lhe davam. A Ucrânia tinha sido um dos centros mais importantes da igreja ortodoxa aquando do grande cisma do ocidente. Foi da Ucrânia que a religião se expandiu para a própria Rússia. E, na Ucrânia, o coração da Igreja Ortodoxa, foi este Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, atualmente no limite urbano de Kiev, a sul da cidade. O mosteiro foi fundado no século XI e é ainda hoje em dia um dos lugares mais santos da igreja ortodoxa. É mesmo o maior lugar de culto e peregrinação da Ucrânia. Terá sido fundado no ano de 1051, por monges que já aqui viviam, em grutas. Estas grutas ainda hoje em dia guardam as sepulturas, que são visitáveis, de monges. Ali se diz: mesmo que os russos deixem o Lavra, onde dia voltarão para o que é seu…

Em suma, nesta Europa em que vivemos, há vários barris de pólvora, guardados. Hoje a política é económica e dos gestores – e não é social nem tão pouco religiosa. Mas os grandes grupos existem, bem como as pequenas etnias. As formas de pensar, de sentir e de agir dos povos ultrapassam sempre os ditames das elites que por momentos as dominam.

É esta a Europa onde estamos. E onde votaremos. Sem a conhecer. (Muitos de nós nunca foram a Espanha e não sabem que a Ucrânia está a poucas horas de avião da sua casa). É esta a Europa, também, que devemos refletir. Se estivermos acordados.

                                       

P.S.- O que aqui fica escrito é uma reflexão. Tem os defeitos inerentes. Quase tudo o que é referido está em livros da História Universal. O livro referido de Pierre Chaunu é  Le Temps des Réformes, Paris, Fayard, 1975, de relativa facilidade de consulta.

                 

Alexandre Honrado

(linha de Investigação em Ciência das Religiões)

Publicado por Re-ligare às 13:07
Link do post | Comentar | Favorito

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds