Domingo, 21 de Setembro de 2008

3º Carta a Alexandre Weffort - 2ª Parte

 

Compreender Categorias

 

No Sanāthana Dharma, a distinção entre Filosofia e Religião parece ter uma outra abarcância. Esquecemo-nos muitas das vezes dos campos semânticos, das polissemias e do alargar de horizontes, de trazer novos universos ao mundo. Pensar o mundo é modificá-lo, logo é modificar a consciência (de relação) de cada um.

O Sânscrito não tem equivalentes directos, quer para o termo “filosofia”, quer para o termo “religião”. O sinónimo mais aproximado para “filosofia” é ānvīk-shikī-vidyā ou seja a “ciência da examinação”. Um termo relacionado é tarka-shāstra, isto é “disciplina de raciocínio ou de ponderação”que é usada pela escola Nyâya, que lida com a dialéctica e a lógica. Muitos eruditos modernos usam o termo tattva-vidyā-shāstra, ou seja a “disciplina do conhecimento da Realidade” para expressar o que nós entendemos por “investigação filosófica”. O conceito de “Religião” está contido no conceito de Dharma que quer dizer Lei ou Norma (com muitas outras conotações). Aquilo que os Ocidentais insistem em denominar “Religião Hindu” deve ser referido como Sanātana-Dharma, a Lei Eterna, que tem correspondência na noção Ocidental de Philosophia Perennis.

Assim, Filosofia não é uma questão de puro conhecimento abstracto mas sim de UMA METAFÍSICA QUE TEM IMPLICAÇÕES MORAIS E ÉTICAS. Dito de outro modo, as progressivas conclusões teóricas de cada um sobre a realidade, devem ser aplicadas na vida de todos os dias. Assim, filosofia é qualquer coisa tida como um modo de vida e nunca como um mero e inconsequente exercício de pensamento. Mais do que isso, a Filosofia da Índia como um todo, tem uma implicação espiritual.

A antiga filosofia Grega – o amor à (da) Sabedoria – parece estar mais próxima da filosofia do Sanātana-Dharma, do que da disciplina académica contemporânea de análise conceptual, que dá pelo nome de filosofia, mas que não está particularmente preocupada com a Sabedoria para uma vida correcta.

Assim, a Filosofia do Sanātana-Dharma abrange as mesmas áreas do pensamento inquiridor que também ocuparam os filósofos do Ocidente, desde os pré-socráticos a Pitágoras, passando por Sócrates e Platão e Aristóteles, a saber:

 

1.   Ontologia – As várias categorias da existência.

2.   Epistemologia – Ocupa-se dos processos pelos quais nós chegamos ao conhecimento do que existe na “realidade”.

3.   Lógica – Define as regras do pensamento racional.

4.   Ética – Examina criticamente as bases filosóficas da acção.

5.   Estética – Procura compreender a Beleza.

 

Tradicionalmente distinguem-se 6 Sistemas ou Darshanas (pontos de vista, da raiz drish, ver), onde cada sistema não é meramente o produto do pensamento racional, mas também um processo intuitivo, visionário. Cada sistema é uma perspectiva particular, a partir da qual se aborda a mesma verdade, o que sugere, pelos menos em teoria, senão mesmo na prática, uma completa tolerância. Essa Verdade – abordada pela iniciação esotérica e pela transmissão oral – é a Realidade Última ou Realidade Transcendente, quer seja designada por Deus, (îsh, îsha, îshvara, toda ela querendo designar “O Governante”) por Self (ātman, purusha) ou o Absoluto (Brahman).

As 6 Darshanas:

1.   Vedānta ou Uttara Mīmānsā – Metafísica não dualista, exposta principalmente nos Upanishades.

2.   Samkhya – Enumeração das várias categorias da existência ou tattvas.

3.   Yoga – Refere-se especificamente à escola filosófica de Patânjali.

4.   Nyāya – Essencialmente uma teoria lógica e de argumentação.

5.   Vaisheshica – Semelhante à Samkhya, ordena, de um certo ponto de vista, as categorias da existência.

6.   Pūrva Mimānsa – Uma incidência filosófica de ritualismo sacrificial.

 

Na próxima Carta poderíamos tentar abordar as 5 Estruturas, segundo Gebser. Que achas?

 

Um Abraço

António

Publicado por Re-ligare às 18:21
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