Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

A PRESENÇA AUSENTE (três): O MEU PASTOR É VIRTUAL

Para quem não segue uma religião, como seu cultor ou crente, mas todas, sem exceção, com a curiosidade afetiva, científica e profunda, cultural e académica, incapaz de ignorar-lhe os pormenores, e a capacidade que possuem, indiscriminadamente, de moldar alguns comportamentos humanos (até à euforia e à excentricidade), a minha experiência mais recente merece ser contada. Deixe-me que lhe diga que, poucos dias antes dessa experiência que vou narrar, me vi confrontado com um anúncio televisivo muito comercial e dinâmico em que uma marca automóvel era comparada à uma divindade.


A marca anunciava que ao sétimo dia de composição criativa-criacionista tinha desembocado na perfeição (se for a ver bem, nenhuma divindade se atreveria a tanto, em especial se analisasse a criação humana, da sua responsabilidade e atrevimento, pobre criação tão distante do que devia ser perfeito mas se mostra incapaz de sê-lo).
Os criativos europeus criaram esta campanha para uma marca alemã. Convém recordar que na Alemanha a Igreja e o Estado são separados, mas há cooperação em várias áreas, principalmente no sector social e não é espantoso, mas ainda destacável que o presidente da Alemanha, o senhor Joachim Gauck, é um pastor luterano, político que teve um papel ativíssimo no processo da reunificação alemã. Se olharmos para outras religiões, uma campanha como esta podia figurar como uma afronta a princípios, crenças, dogmas...


Passando nas televisões – e outros veículos de propagação audiovisual – a referida campanha publicitária pare ter deixado indiferentes os crentes. Não sei também se motivou a compra do carro em questão. A verdade é que motivou a ressalva intelectual de alguns não crentes, e mais não digo.

 

Estava eu a digerir isto quando os acasos da vida me levaram a um acontecimento social sempre pesado e afetivamente incómodo: um funeral.

 

Cheguei à Igreja onde se prestaria a última homenagem a quem partia e a primeira impressão foi impressionante. Construída numa terra de fortes tradições não religiosas, a igreja (católica) era uma peça de cenário sugestivo. No alto de uma elevação, com uma arquitetura fantástica, de grandes portas e janelas rasgadas permitindo ver, de longe, o interior. A igreja no seu esplendor teatral. À noite, o efeito era ainda maior: as luzes projetadas no interior, sobre fiéis e celebrantes, permitiam um espetáculo, mesmo à distância, para quem passasse. Não é um exemplo inédito, mas sendo uma construção recente, apreciei com demora. Todavia, o que se seguiu foi mais intenso.

 

Na capela mortuária, um pastor recebia os presentes. (Na igreja católica, que recebia um funeral protestante). O pastor então convidou os presentes a verem, nos seus telemóveis, os cânticos que ia propor na cerimónia. Podiam, os que que quisessem, descarregar a aplicação que permitia o acesso ao livro de cânticos. Confesso que fiquei um pouco admirado. Como já disse aqui, a linha invisível entre a modernidade e a pós-modernidade quebrou-se com a presença no mundo profano das tecnologias digitais, dos anos 90 até agora com uma rapidez invulgar de implantação e aceitação. Isso permitiu – e promoveu uma mudança de conceito nas relações religiosas com estas tecnologias. A assimilação dos meios tecnológicos aliou o digital e o espiritual. Hoje, o Pastor de cada um está na Internet, as missas e os cultos também.


Da confissão à ideia da vela virtual, a internet acende os crentes, perdoe-se a ousadia da comparação. As redes sociais enchem-se de citações, de salmos, de passagens bíblicas, corânicas, de citações de rabis ou do Talmude, ou de outros livros sagrados.


Distante do Homem e perto do PDF, do Twitter, do Facebook, do Twoo, de todas as formas electrónicas possíveis, há um deus na rede, um pastor virtual, uma salvação, em forma de redes interligadas num conjunto de protocolos padrão, que podem levá-lo do seu computador ao céu da sua vontade.

Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 16:49
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Sábado, 17 de Maio de 2014

Da matriz religiosa das touradas

Esta semana, o programa Prós e Contras da RTP1 voltou a abordar o tema da festa brava: "Touradas: Património ou Barbaridade?" Neste fórum, não pretendo pronunciar-me a favor ou contra as touradas, mas simplesmente evocar antiquíssimas celebrações festivas com touros, de carácter religioso, por toda a bacia mediterrânica e, o que mais nos interessa aqui, em Israel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um antigo culto mediterrânico

 

O touro é omnipresente na antiga religião mediterrânica, da Anatólia ao Egito, da Creta minoica à Índia, sem esquecer ainda os cultos de Mitra na Roma Antiga. Ele é considerado um animal divino, simultaneamente símbolo da lua, da fertilidade e do renascimento.

 

Na antiga religião israelita - que não deve ser confundida com o Judaísmo que se desenvolveu em Yehud (a província persa de Judá) após o exílio babilónico - o touro desempenhava um papel idêntico ao de outros povos mediterrânicos da época, a saber: para além da sua função ou uso sacrificial (cf. Levítico), estava também relacionado com o culto de algumas divindades (e, no caso concreto, com Javé; cf. 1 Reis 12).

 

"Israel, eis o teu deus que te fez sair da terra do Egito" (Êxodo 32, 4)

Em vários lugares da Bíblia Hebraica, evoca-se a apostasia israelita, consubstanciada na adoração do "bezerro de ouro" (cf. Êxodo 32; Deuteronómio 9; 1 Reis 12). Em 1 Reis 12 e Deuteronómio 9, particularmente, a polémica deuteronomista visa certamente esse antigo culto israelita, paralelo ao ugarítico. Em Israel, Javé seria adorado, provavelmente, como um deus da tempestade, do tipo Baal; e, tal como Baal, era representado pelo bezerro (sendo El, o chefe do panteão cananeu, muitas vezes evocado como o “Touro [adulto] El”). Aliás, nas montanhas de Manassé, perto de Dotan, foi precisamente encontrada uma estatueta de um bezerro em bronze, que poderia perfeitamente ilustrar esta realidade.

O capítulo 12 de 1 Reis parece indicar que era celebrada em Betel uma importante festa a Javé, "libertador do Egito", como seria bem expresso na formula litúrgica: "Israel, eis o teu deus [Javé] que te fez sair da terra do Egito". Os ecos dessa celebração, porém, seriam mais claros no episódio do bezerro de ouro de Êxodo 32.

 

"Amanhã haverá festa em honra de Javé" (Êxodo 32, 5)

Os exegetas dividem-se na interpretação desta passagem. Segundo alguns - e é a posição mais difundida -, haveria nesta passagem uma alusão ao contexto marcial da festa israelita. O bezerro de ouro seria o suporte ou pedestal da divindade invisível (mantendo-se portanto o carácter anicónico da religião israelita), que era levada em procissão, durante a qual se repetia a fórmula litúrgica acima invocada. E, à semelhança do que acontecia no Sul com a Arca da Aliança, o bezerro de ouro seria também transportado, como símbolo da presença da divindade, nas chamadas "guerras de Javé".

Outros, porém, veem nesta passagem uma paródia da festa da renovação da aliança do Reino do Norte, na qual a imagem do bezerro representava efetivamente o deus nacional (tanto de Israel como de Judá), Javé, pelo que seria uma autêntica apostasia no entender dos escritores sagrados do Reino do Sul (que são os que, finalmente, escreveram a Bíblia!).

Finalmente, Jack M. Sasson chama a atenção para a possível representação icónica do bezerro de ouro: é certo que, enquanto símbolo da fecundidade, poderia evocar o deus israelita como garante da fecundidade em Israel (cujo solo não era assim tão propício, como noutros lugares do levante), e ao mesmo tempo ícone ainda das celebrações desportivas que marcavam as festas litúrgicas, não só em Israel como nos vários povos da região (a que alude também a passagem de Juízes 16, 25).

 

"Com o meu Deus, saltarei sobre o touro" (Salmo 18, 30)

Desde o início do segundo milénio antes de Cristo, existem vestígios iconográficos, em várias culturas mediterrânicas, de celebrações festivas envolvendo jogos com touros, e nomeadamente o salto sobre o touro (ver imagens).

A esse tipo de jogos aludiria o Salmo 18, 30 (e o respetivo paralelo 2 Samuel 22, 30). Philippe Guillaume e Noga Blockman (ver infra) demonstraram, recentemente, que as traduções correntes não respeitam o sentido original da raiz hebraica, que remeteria para o animal (touro) e não para um hipotético "muro" ou "muralha". A ser isso verdade, estas passagens bíblicas mencionariam os jogos taurinos que aparecem em inúmera iconografia da área mediterrânica (Dijk 2011), e fariam luz sobre a festa mencionada em Êxodo 32, na linha da interpretação de Jack M. Sasson (Russel 2009).

 

Para aprofundar: Renate M. Van Dijk, The Motif of a Bull in the Ancient Near East: An Iconographic Study, dissertação de Master of Arts, University of South Africa, 2011. Philippe Guillaume e Noga Blockman, "By my God, I bull leap (Psalm 18:30 // 2 Samuel 22:30)" [2004], in www.lectio.unibe.ch/04_2/HTML/guillaume_blockman.htm (consultado em 13/05/2014). Stephen C. Russell, Images of Egypt in Early Biblical Literature, Berlim, Walter de Gruyter, 2009.

 

Porfírio Pinto

 

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 3 de Dezembro de 2013

O Medo do Outro (notas de leitura)

Tzvetan Todorov, La peur des barbares. Au-delà du choc des civilisations, Paris, Robert Laffont, 2008, 312 páginas (346 páginas na edição “Le Livre de Poche”, que usamos); trad. port.: O Medo dos Bárbaros. Para além do choque das civilizações, Rio de Janeiro, Vozes, 2010.

Este extraordinário livro de T. Todorov deixa-se perfeitamente dividir em duas partes: a primeira (de que fariam parte os dois primeiros capítulos), mais “teórica”, em que o autor define vários conceitos, tais como “bárbaro”, “civilização”, “cultura(s)”, “identidade coletiva”; a segunda (desenvolvida em três capítulos), como uma aguda reflexão sobre a atualidade, em que desmonta a teoria do “choque de civilizações” de Huntington, estuda três eventos que marcaram o mundo (o assassinato de Théo Van Gogh, a crise das caricaturas dinamarquesas sobre Maomé e o discurso de Bento XVI em Ratisbona) e aborda a questão da “identidade europeia”.
No fundo, o livro é de novo uma reflexão sobre a questão do Outro. “De novo” porque, em 1982, o autor já o tinha feito, situando-se precisamente nos inícios da modernidade: a descoberta do “novo mundo” (T. Todorov, La conquête de l’Amérique. La question de l’autre, Paris, Seuil, 1982). Agora, volta a fazê-lo numa Europa que se interroga sobre as suas “raízes” e num mundo pós-11 de Setembro de 2001.

* * *
Mas não é minha intenção fazer aqui uma recensão do livro. Mas, porque desde algum tempo também me interesso pelo tema do Outro, queria apenas partilhar neste fórum algumas notas de leitura que me parecem interessantes.
Desde logo, o belíssimo texto que o autor escolheu para colocar no início do primeiro capítulo (“Barbárie e civilização”): “Il n’y a jamais eu une valeur de civilisation qui ne fût pas une notion de féminité, de douceur, de compassion, de non-violence, de faiblesse respectée... Le premier rapport entre l’enfant et la civilisation, c’est son rapport avec sa mère” (Romain Gary, La nuit sera calme). Independentemente dos conteúdos histórico-culturais que os conceitos de “bárbaro” e “civilizado” adquiriram, tudo se resume segundo Todorov a uma única categoria fundamental: reconhecer ou não o Outro como ser humano – “os bárbaros são aqueles que não reconhecem que os outros são seres humanos como eles” (p. 36). Ora, isso começa logo pela questão linguística (donde vem precisamente o termo “bárbaro”): “a ignorância da língua de alguém impede-me de o perceber como plenamente humano” (p. 39). Vem depois a questão moral, ou o suposto comportamento “selvagem” – inumano – do “bárbaro”. “Rousseau viu bem o problema: ‘O bem e o mal brotam da mesma fonte’, escrevia ele, e esta fonte não é outra coisa que a nossa necessidade irredutível de viver com os outros, a nossa capacidade de nos identificar a eles, o nosso sentimento de humanidade partilhada” (pp. 43-44). A mesma pessoa pode ser sujeito de atos/atitudes contrárias. Pelo que, “são os atos ou as atitudes que são bárbaras ou civilizadas, e não os indivíduos ou os povos” (p. 45).
“Pelo facto de todo o ser humano participar simultaneamente de várias culturas, a possibilidade da sua [culturas] coexistência pacífica não deveria ser questionada” (p. 149). É por isso que a teoria do “choque de civilizações” é problemática! É claro que o que está por detrás desta teoria é uma suposta “guerra religiosa” entre Islão e Cristianismo, o que seria, absolutamente, uma novidade histórica, pois “as guerras tiveram sempre motivações essencialmente políticas, económicas, territoriais e demográficas” (p. 155), e não ideológicas ou religiosas. Se a religião é invocada, é-o de maneira “deliberadamente instrumentalizada” (p. 160). Samuel Huntington sabe isso: “Odiar faz parte da humanidade do homem. Para nos definir e nos mobilizar, temos necessidade de inimigos” (citado na p. 169-179). Porém, “quando a inumanidade de um é suprimida ao preço da desumanização do outro, o desafio é irrisório. Se para vencer o inimigo se imitam os seus atos mais horrendos, é a barbárie que vence. O maniqueísmo não pode combater o maniqueísmo. A estratégia que procura contrariar a violência do inimigo com uma violência semelhante está condenada ao fracasso” (pp. 188-189).
Nos últimos anos houve um grande debate na União Europeia em torno à sua “identidade cultural” (ou civilizacional). Ao espírito de muitos vem a definição de Paul Valéry, no termo da Primeira Guerra Mundial, para quem os povos europeus estão marcados por três grandes influências: Roma, com a sua organização política e social, o direito e as instituições, ou ainda o estatuto do cidadão; Jerusalém, pela herança moral judeo-cristã, o exame de consciência e a justiça universal; Atenas, com o seu gosto pelo conhecimento, a argumentação racional e o ideal de harmonia (cf. pp. 282-283). Todavia, um outro pensador suíço, Denis de Rougemont, foi mais longe, invocando outras influências: as doutrinas do bem e do mal da tradição persa, a ideia de amor dos poetas árabes ou a tradição mística dos povos celtas (cf. p. 284). E, evidentemente, a partir da Idade Moderna, não podemos ignorar a elaboração de memórias coletivas nacionais, que pode alargar ainda mais o leque das influências da identidade europeia: não apenas Atenas, Roma e Jerusalém, mas ainda Londres, Paris, Amesterdão, Genebra, Berlim, Milão, etc. (cf. p. 285).
Por isso o autor defende uma unidade baseada na pluralidade: “a minha hipótese será a seguinte: a unidade da cultura europeia reside na sua maneira de gerir as diferentes identidades regionais, nacionais, religiosas, culturais que a constituem, concedendo-lhe um novo estatuto e tirando proveito desta mesma pluralidade” (p. 290), e adere de bom grado à teoria “cosmopolita” do alemão Ulrich Beck, baseada em três princípios: 1) um conjunto de pequenas entidades que obedecem a uma norma comum; 2) a concessão de um estatuto legal às diferenças entres ditas entidades; 3) e a atribuição de direitos iguais a todas a entidades (cf. p. 304). Segundo este último autor, “o milagre europeu consiste em poder transformar os inimigos em vizinhos” (cit. p. 306). Nesta linha, para Todorov, “o projeto de uma União Europeia é sobretudo uma tentativa para tornar o destino do mundo mais civilizado [e menos bárbaro]” (p. 322).
Em suma, este livro é um convite a vencer o medo do Outro, para construir com ele um mundo novo. Como diz o autor, “o medo é mau conselheiro e é preciso ter medo daqueles que vivem no medo” (p. 187).

Porfírio Pinto

Publicado por Re-ligare às 12:01
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Esta economia mata

Opinião de Joaquim Franco

Jornalista

 

Ao longo de oito meses de pontificado, em intervenções mais ou menos avulsas, textos e improvisos desconcertantes, homilias improváveis ou entrevistas surpreendentes, o papa Bergoglio manteve e reforçou as pistas, organizando-as agora na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

Nos últimos dias veio à memória a missa de inauguração do pontificado de Francisco. Naquela manhã de 19 de março, o mundo mediático esperava as linhas programáticas do novo Papa. O novo Papa, ladeado pelos chefes de estado e de governo que se deslocaram a Roma para a cerimónia de praxe, pediu justiça e cuidado com a “Criação inteira”, falando várias vezes de ternura e bondade. Quem esperava mais, teve de se sentar. Mas as pistas estavam à vista de todos.

O texto é provocador para uma Igreja que carece de reformas profundas na atitude e na estrutura, e para um mundo político que carece de libertação, sobretudo em relação ao poder financeiro.

A novidade de Francisco está também na frescura assertiva com que vai ao “osso”, e que, desta vez, não serve apenas para legitimar os assuntos obsessivos e fraturantes da Igreja católica. A fratura maior dá-se a partir de uma crise antropológica, de “negação da primazia do ser” (Evangelii Gaudium, 55), para se transformar na “grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo”.  

O Papa lamenta as “ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira” (EG, 56), que negam “o direito” aos Estados de “velar pela tutela do bem comum”.

De facto, “criou-se um paradigma de vivência e convivência alicerçado na dimensão do consumo, que cedeu à tentação do supérfluo. Como temos refletido, o gozo pontual e vicioso de «ter» sobre o princípio do «ser». Um estilo de vida mais materialista - que, como se vê, entrou em fase de esgotamento” -, agravado por “uma elite do pensamento económico, neoliberal, que elevou o mercado à categoria de um «deus» intocável” *. Foi isso que se ensinou durante várias gerações académicas, que cresceram também em ambiente cristão católico, dissimuladas entre reflexões sobre a Doutrina Social da Igreja. “O dinheiro deve servir, e não governar!” (EG, 58), diz o papa Bergoglio, que sente a necessidade, no atual contexto da história, de exortar a uma “solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano”. Como dissera no Rio de Janeiro, em Julho, é um “sistema social injusto na sua raiz” (EG, 59). Não é possível impedir a violência “enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade”. Numa “sociedade que abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir a tranquilidade”.

Sejamos claros, um rendimento mínimo é sempre injusto para quem o recebe. Quanto mais não seja porque é mínimo. Mas há uns mínimos mais mínimos que outros. E não há democracia que sobreviva se a economia não tiver como prioridade o combate à exclusão e às desigualdades. “Esta economia mata” (EG, 53).

Alegar que um rendimento é mais seguro quanto mais mínimo for, é inverter o princípio da razoabilidade no combate às desigualdades e, em última instância, incentivar a selvajaria. Rendimentos que não garantam um mínimo de dignidade, que não correspondam à adequada retribuição pelo trabalho ou sejam residuais na disparidade, sustentam uma injustiça concreta. “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz” (EG, 56). É aqui que as opções políticas, com a máxima da ética e sem amarras, podem fazer a máxima diferença.

Somos Pobres mas Somos Muitos, Verso de Kapa, p.96

Sugestões de leitura: Quando Jesus chorou (Clube do Autor) de Bodie e Brock Thoene; A Lista de Bergoglio (Paulinas) de Nello Scavo.

 

Editado em: http://sicnoticias.sapo.pt/opinionMakers/joaquim_franco/2013/12/02/esta-economia-mata

Publicado por Re-ligare às 11:31
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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Ordens monásticas poderão regressar

A carta que Bento XVI endereçou à Igreja Católica na China continua a dar
frutos. Terá sido em parte por ela, e pelo diálogo que abriu, que Pequim
permitiu a ida de oito padres católicos chineses para a Alemanha, onde
experimentaram a vida monástica durante um curso que se realizou num
mosteiro beneditino.
A China proibiu todas as ordens monásticas masculinas durante a revolução
cultural, mas esta iniciativa poderá indicar alguma abertura no sentido de
permitir que estas regressem. Algumas ordens femininas já operam no país.
Jeremias Schröder, o abade do mosteiro de Santo Otílio, onde os oito
chineses estiveram hospedados, disse mesmo que a carta do Papa tinha sido
"da maior importância" para possibilitar esta experiência.
O gesto do Governo chinês parece indicar alguma vontade de melhorar as suas
relações com a Igreja Católica. Contudo, o clima de perseguição não
desapareceu por completo. No último dia dos Jogos Olímpicos o Bispo Julius
Zhiguou, da Igreja clandestina, terá sido detido pelas autoridades sem que
se saiba nada sobre o seu paradeiro.
 

Sofia S.

aluna do 2º ano da Lic. em Ciência das Religiões

*Fontes*: Agencia Lusa, RFM Online, Renascença Online.

Publicado por Re-ligare às 13:28
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Governo proíbe barbas durante o Ramadão

Os governos regionais do ocidente de Xinjiang, na China, estão a impor
regras severas durante o Ramadão, que começou a semana passada, provando
mais uma vez que as autoridades se sentem desconfortáveis com a fé.
Entre as regras conta-se a proibição de funcionários públicos, professores e
estudantes de observarem o Ramadão ou entrarem em mesquitas durante o mês
que este dura. Todos os membros do Partido Comunista estão sujeitos à mesma
proibição, que abrange ainda os funcionários públicos reformados.
Mais bizarra é a nova lei que proíbe os homens de deixarem crescer a barba
durante esta época, obrigando a rapá-la os que já possuam uma. As mulheres,
por sua vez, estão banidas de usar véus.
Mas as leis não se ficam por questões capilares. Os restaurantes passam a
estar obrigados a cumprir horários normais, para impedir que encerrem
durante o dia, como muitos costumavam fazer.
A região ocidental de Xinjiang é habitada principalmente por Uighurs. Estes
são na sua maioria muçulmanos e etnicamente próximos dos turcos. A zona tem
sido abalada por alguns atentados e existe um movimento independentista que
preocupa o Governo chinês.
O Ramadão, que celebra a transmissão do Alcorão a Maomé, é um mês do
calendário muçulmano. Sendo este lunar, a data do Ramadão, segundo o
calendário seguido no ocidente, varia. Este ano teve início no dia 1 de Setembro e
continua até ao dia 30. Durante esse mês os muçulmanos maiores e saudáveis
cumprem um rigoroso jejum entre o nascer e o pôr-do-sol. É também uma época
de oração intensificada.
 

Sofia S.

aluna do2º ano da Lic. em Ciência das Religiões

 

Publicado por Re-ligare às 13:26
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Religião e Sexualidade. Liberdade e Poder.

 

 

 

O corpo feminino na Arte e na Religião

 

 

 

Detalhe do Cruzeiro do
Castelo de Viana do Alentejo.
De estilo gótico-manuelino,
ostenta na face Ocidental a
Virgem do Leite e
na face Oriental a Piedade.
 
Foto ABW, 2008

 

 

questão surgiu neste blog a propósito dos comentários a uma fotografia erótica associada a um símbolo religioso[1], mas a discussão ficou presa à reacção (reacção essa que amplificou a importância de um episódio que pouco significa em termos estéticos e, decorrentemente, menos ainda em termos éticos).

 

O interesse maior situa-se assim não no significado da fotografia referida mas na reacção que ela suscitou. E essa manifestação ocorre, e de forma significante, até mesmo no espaço deste blog (perfilhando um prisma que se pretenderá científico).

 

A definição do que é um “prisma científico” é, desde já, problemática, instável, mas não impossível. Colocando de uma forma algo simplista, creio que este deve obedecer a alguns critérios: deve ser “experienciável”, deve poder ser partilhado e deve manter um carácter não dogmático (podendo ser confirmado ou rejeitado).

 

Voltando à questão inicial, da tensão criada entre liberdade e religião, neste caso, entre a liberdade de expressão e o respeito ao valor simbólico dos ícones religiosos, essa tensão começa com a apreciação que se estabelece entre a sexualidade e a sua manifestação estética - o primeiro parágrafo deste texto veicula, de certa forma, uma valoração estética negativa, mas poderia ter recorrido à fórmula oposta (citando material deste mesmo blog: “a menina mostrou o que é seu, o belo corpo ...”).

 

O problema não será estritamente religioso (nem, efectivamente, essencial). Há outros problemas do mesmo cariz e, creio, mais relevantes (no âmbito da relação entre religião e sexualidade) como, por exemplo: da possibilidade ou não de mulheres exercerem o sacerdócio; da possibilidade ou não do casamento para os sacerdotes; dos casos de pedofilia envolvendo sacerdotes, etc.

 

A ideologia veiculada pela religião, nomeadamente a cristã (e, mais especificamente, a católica), conserva um conflito não resolvido com a questão da sexualidade. É uma área tabu, também presente em outros quadrantes religiosos (como o Islão), onde o papel regulador dos comportamentos desempenhado pela religião aparece de forma evidente.

 

O desnudar do corpo ganha então uma significação especial: não seguir uma determinada prescrição da sociedade assume uma dimensão de liberdade (mesmo que ilusória). Confronta-se o poder sancionatório da sociedade através da contradição às regras morais dominantes.

 

Confronta-se assim o próprio Poder. E uma questão acessória torna-se, pelo valor simbólico do confronto, uma questão essencial, por exemplo, se a considerarmos sob o ponto de vista da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Da burqa e do xador islâmicos à nudez plena, o direito da mulher à liberdade de decidir sobre o seu próprio corpo é posto em causa pelos ditames religiosos[2]. Esticando um pouco a questão, podemos chegar ao problema da utilização de contraceptivos, da relação pré-nupcial ou da interrupção da gravidez ... Exagero, poderão alguns considerar, pois apenas se questionava a sobreposição de símbolos (do nú com o crucifixo). Mas está dentro da mesma linha de problematização: a do papel da religião como instrumento regulador dos comportamentos sociais no âmbito da sexualidade (e querendo esticar ainda mais o tema, que é como as cerejas – tira-se uma e vem sempre outra agarrada – chegávamos a Freud ... e à mensagem que a Virgem do Leite nos proporciona).

 

Alexandre B. Weffort

 



[1] Publicada no Brasil pela revista Playboy e objecto de censura pela justiça brasileira.

[2] Não esquecendo que, no caso da revista referida, trata-se de um aproveitamento comercial do símbolo sexual. A imagem da mulher subordina-se, nesse caso, ao processo de mercadorização que domina a sociedade moderna.

 
Publicado por Re-ligare às 23:03
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