Terça-feira, 3 de Dezembro de 2013

O Medo do Outro (notas de leitura)

Tzvetan Todorov, La peur des barbares. Au-delà du choc des civilisations, Paris, Robert Laffont, 2008, 312 páginas (346 páginas na edição “Le Livre de Poche”, que usamos); trad. port.: O Medo dos Bárbaros. Para além do choque das civilizações, Rio de Janeiro, Vozes, 2010.

Este extraordinário livro de T. Todorov deixa-se perfeitamente dividir em duas partes: a primeira (de que fariam parte os dois primeiros capítulos), mais “teórica”, em que o autor define vários conceitos, tais como “bárbaro”, “civilização”, “cultura(s)”, “identidade coletiva”; a segunda (desenvolvida em três capítulos), como uma aguda reflexão sobre a atualidade, em que desmonta a teoria do “choque de civilizações” de Huntington, estuda três eventos que marcaram o mundo (o assassinato de Théo Van Gogh, a crise das caricaturas dinamarquesas sobre Maomé e o discurso de Bento XVI em Ratisbona) e aborda a questão da “identidade europeia”.
No fundo, o livro é de novo uma reflexão sobre a questão do Outro. “De novo” porque, em 1982, o autor já o tinha feito, situando-se precisamente nos inícios da modernidade: a descoberta do “novo mundo” (T. Todorov, La conquête de l’Amérique. La question de l’autre, Paris, Seuil, 1982). Agora, volta a fazê-lo numa Europa que se interroga sobre as suas “raízes” e num mundo pós-11 de Setembro de 2001.

* * *
Mas não é minha intenção fazer aqui uma recensão do livro. Mas, porque desde algum tempo também me interesso pelo tema do Outro, queria apenas partilhar neste fórum algumas notas de leitura que me parecem interessantes.
Desde logo, o belíssimo texto que o autor escolheu para colocar no início do primeiro capítulo (“Barbárie e civilização”): “Il n’y a jamais eu une valeur de civilisation qui ne fût pas une notion de féminité, de douceur, de compassion, de non-violence, de faiblesse respectée... Le premier rapport entre l’enfant et la civilisation, c’est son rapport avec sa mère” (Romain Gary, La nuit sera calme). Independentemente dos conteúdos histórico-culturais que os conceitos de “bárbaro” e “civilizado” adquiriram, tudo se resume segundo Todorov a uma única categoria fundamental: reconhecer ou não o Outro como ser humano – “os bárbaros são aqueles que não reconhecem que os outros são seres humanos como eles” (p. 36). Ora, isso começa logo pela questão linguística (donde vem precisamente o termo “bárbaro”): “a ignorância da língua de alguém impede-me de o perceber como plenamente humano” (p. 39). Vem depois a questão moral, ou o suposto comportamento “selvagem” – inumano – do “bárbaro”. “Rousseau viu bem o problema: ‘O bem e o mal brotam da mesma fonte’, escrevia ele, e esta fonte não é outra coisa que a nossa necessidade irredutível de viver com os outros, a nossa capacidade de nos identificar a eles, o nosso sentimento de humanidade partilhada” (pp. 43-44). A mesma pessoa pode ser sujeito de atos/atitudes contrárias. Pelo que, “são os atos ou as atitudes que são bárbaras ou civilizadas, e não os indivíduos ou os povos” (p. 45).
“Pelo facto de todo o ser humano participar simultaneamente de várias culturas, a possibilidade da sua [culturas] coexistência pacífica não deveria ser questionada” (p. 149). É por isso que a teoria do “choque de civilizações” é problemática! É claro que o que está por detrás desta teoria é uma suposta “guerra religiosa” entre Islão e Cristianismo, o que seria, absolutamente, uma novidade histórica, pois “as guerras tiveram sempre motivações essencialmente políticas, económicas, territoriais e demográficas” (p. 155), e não ideológicas ou religiosas. Se a religião é invocada, é-o de maneira “deliberadamente instrumentalizada” (p. 160). Samuel Huntington sabe isso: “Odiar faz parte da humanidade do homem. Para nos definir e nos mobilizar, temos necessidade de inimigos” (citado na p. 169-179). Porém, “quando a inumanidade de um é suprimida ao preço da desumanização do outro, o desafio é irrisório. Se para vencer o inimigo se imitam os seus atos mais horrendos, é a barbárie que vence. O maniqueísmo não pode combater o maniqueísmo. A estratégia que procura contrariar a violência do inimigo com uma violência semelhante está condenada ao fracasso” (pp. 188-189).
Nos últimos anos houve um grande debate na União Europeia em torno à sua “identidade cultural” (ou civilizacional). Ao espírito de muitos vem a definição de Paul Valéry, no termo da Primeira Guerra Mundial, para quem os povos europeus estão marcados por três grandes influências: Roma, com a sua organização política e social, o direito e as instituições, ou ainda o estatuto do cidadão; Jerusalém, pela herança moral judeo-cristã, o exame de consciência e a justiça universal; Atenas, com o seu gosto pelo conhecimento, a argumentação racional e o ideal de harmonia (cf. pp. 282-283). Todavia, um outro pensador suíço, Denis de Rougemont, foi mais longe, invocando outras influências: as doutrinas do bem e do mal da tradição persa, a ideia de amor dos poetas árabes ou a tradição mística dos povos celtas (cf. p. 284). E, evidentemente, a partir da Idade Moderna, não podemos ignorar a elaboração de memórias coletivas nacionais, que pode alargar ainda mais o leque das influências da identidade europeia: não apenas Atenas, Roma e Jerusalém, mas ainda Londres, Paris, Amesterdão, Genebra, Berlim, Milão, etc. (cf. p. 285).
Por isso o autor defende uma unidade baseada na pluralidade: “a minha hipótese será a seguinte: a unidade da cultura europeia reside na sua maneira de gerir as diferentes identidades regionais, nacionais, religiosas, culturais que a constituem, concedendo-lhe um novo estatuto e tirando proveito desta mesma pluralidade” (p. 290), e adere de bom grado à teoria “cosmopolita” do alemão Ulrich Beck, baseada em três princípios: 1) um conjunto de pequenas entidades que obedecem a uma norma comum; 2) a concessão de um estatuto legal às diferenças entres ditas entidades; 3) e a atribuição de direitos iguais a todas a entidades (cf. p. 304). Segundo este último autor, “o milagre europeu consiste em poder transformar os inimigos em vizinhos” (cit. p. 306). Nesta linha, para Todorov, “o projeto de uma União Europeia é sobretudo uma tentativa para tornar o destino do mundo mais civilizado [e menos bárbaro]” (p. 322).
Em suma, este livro é um convite a vencer o medo do Outro, para construir com ele um mundo novo. Como diz o autor, “o medo é mau conselheiro e é preciso ter medo daqueles que vivem no medo” (p. 187).

Porfírio Pinto

Publicado por Re-ligare às 12:01
Link do post | Comentar | Favorito
Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Para que nos servirão os imigrantes? O empreendedorismo seria apenas um campo

Neste Agosto em que, como em todos os outros Agostos das últimas décadas, Portugal recebe os seus imigrantes mundo fora, merece a pena reflectir um pouco sobre as funcionalidades dos imigrantes em Portugal. Ainda há poucos dias, este jornal (Público de 10 de Agosto) fazia capa com uma notícia brutal: “Há imigrantes a trabalhar sob violência, extorsão e medo”. Esta realidade é a imagem mais clara de que não sabemos como lidar com esta magnífica oportunidade que são os imigrantes. Estamos, literalmente, a jogar fora a “galinha dos ovos de ouro”.

É claro que os que lerem estas linhas conseguem, sem grande dificuldade, levantar algumas objecções a este meu quadro idílico. Até posso concordar em alguns aspectos com eles, sendo clara, por exemplo, a necessidade de criar mecânicas e processos que não levem os imigrantes ao crime, por exemplo. Mas há vantagens que são em muito maior escala e valor. Para além do que podemos verificar facilmente, a natalidade e o combate ao envelhecimento da população, a contribuição para o PIB e para a Segurança Social, há campos de “mentalidade” que deveríamos aproveitar e estimular.

Há quase vinte anos, estive nos arredores de Paris na casa de uma dessas famílias imigrantes portuguesas que poderiam vir de férias neste Agosto. Mas não. A sua relação com Portugal era complexa e, acima de tudo, inexistente. Saíra das beiras nos anos cinquenta, fugindo a um destino que sabiam muito claro: a miséria sem luz ao fundo do túnel. Nas suas palavras, transparecia ingratidão, abandono, magoa. Um imigrante é isso mesmo, um ser brutalmente frágil por se ver obrigado a romper com o cordão umbilical. Facilmente esse processo é traumático.

Felizmente, em França foram bem integrados. O agradecimento a esse país estranho onde entraram sem sequer conhecer a língua era uma ponta de sol naqueles olhos. Nem todos os portugueses foram bem acolhidos nos destinos de demanda de melhor futuro. Tal como nem todos os tailandeses, por exemplo, são mal acolhidos em Portugal. Mas, com dezenas de anos de imigração, com vagas de milhares de nacionais a seguir para o Brasil, para os EUA, para o Canadá, para França, para a Suíça, para o Luxemburgo, entre tantos outros países, era tempo de colocar em prática o que aprendemos enquanto sociedade sobre esses fenómenos.

Com uma matriz cultural muitas vezes bem diversa, diferente em relação à católica maioritária em Portugal, muitos destes imigrantes vêm de sociedades mais laicizadas onde o culto ao trabalho e a valorização do empreendedorismo são valores fortes. Da Europa de Leste, onde a formação técnica e cultural é de uma grande solidez, do oriente asiático, onde a determinação pelo trabalho é uma constante, de espaços diversos protestantes e evangélicos, onde não se aponta o enriquecimento como uma mácula, mas sim como uma bênção, estes imigrantes são uma potente mais valia em fase de possível retoma económica. Para que serve um imigrante no seu país de destino?

Exactamente, serve para aquilo a que ele vai: trabalhar. Então, que a relação seja simbiótica: que ele trabalhe da melhor forma que sabe e puder. Acolhidos e acolhedores agradecerão e guardarão memórias de gratidão.

              

Paulo Mendes Pinto

(dir. Lic. em Ciência das Religiões)

Publicado por Re-ligare às 00:55
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Favorito
Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Segurança, religião e publicidade impedem jogadores de festejar golos sem camisola

Retirado do Publico on-line, aqui vos deixo esta notícia que merece, naturalmente, a nossa reflexão.

                

                    

Segurança, religião e publicidade estão na base do castigo aplicado a um jogador de futebol que retire a camisola para festejar um golo. O último a sentir na pele os efeitos desta punição foi o sportinguista Simon Vukcevic, que, ao ver o segundo amarelo, acabou expulso no confronto com a Fiorentina, na última terça-feira (2-2), em Alvalade, complicando a passagem da sua equipa à fase de grupos da milionária Liga dos Campeões.

Todos os jogadores estão bem conscientes das consequências dos festejos mais desbragados de um golo, nomeadamente quando cedem à tentação de tirar a camisola (Cristiano Ronaldo que o diga), mas continuam a desafiar os árbitros. Muitos criticam esta medida do International Board da FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado), nomeadamente Gilberto Madaíl (ver caixa), presidente da FPF (Federação Portuguesa de Futebol), mas poucos sabem todas as razões que estiveram na sua origem.

A segurança surge no topo das suas fundamentações. “Havia jogadores que, depois de marcarem golo, tiravam a camisola ou metiam-na sobre a cara e dirigiam-se aos espectadores adversários ou ao banco dos suplentes na área técnica adversária, provocando-os”, explicou ao PÚBLICO Vítor Pereira, presidente da Comissão de Arbitragem da LPFP (Liga Portuguesa de Futebol Profissional), instrutor da FIFA e ex-membro do Comité de Arbitragem da UEFA. Atitudes que resultaram “em violência em vários jogos”, acabando por integrar o rol de “comportamentos antidesportivos” do organismo máximo do futebol mundial, com punição obrigatória.

Mais inesperada (ou não) será a preocupação religiosa que reforçou a determinação da FIFA neste particular. “Os muçulmanos são, por motivos religiosos, contra a exibição do corpo nu, o que acontece parcialmente quando um jogador tira a camisola, ou a puxa para cima da cabeça. Como o futebol é um jogo global, deve respeitar-se estas crenças religiosas”, esclareceu Vítor Pereira, que remeteu para um plano secundário as questões publicitárias. “Foi o terceiro vector e o menos determinante para isso, já que seria resolvido com punições, nomeadamente pecuniárias, sem ser necessária a punição desportiva”, revelou.

Publicado por Re-ligare às 23:01
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Favorito

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. O Medo do Outro (notas de...

. Para que nos servirão os ...

. Segurança, religião e pub...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds