Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

A ciência das religiões e a “Integralidade” de Wilber

 

O início do estudo da ciência das religiões e o dialogo sobre as questões que esse estudo suscita, nomeadamente no que refere ao nível epistemológico, levou-me ao contacto com as propostas de Ken Wilber, filósofo, criador da Psicologia Integral. É um contacto ainda incipiente mas que permite, desde já, avançar na busca de um diálogo sobre a importância deste filósofo e dos conceitos por ele integrados (sobretudo no modo como os integra). 

As questões formuladas por Wilber são essenciais ao campo de estudos da ciência das religiões, pois apresenta uma tentativa de integração do conhecimento e do pensamento filosófico e científico Ocidental e Oriental (numa maneira simplista de dizer: de todo o conhecimento que, nos critérios e no método assumidos pelo autor, se apresente como válido). Posto de outra forma e de forma elucidativa, Wilber procura um entendimento integrado das mais diversas concepções (daquelas a que reconhece validade), indo, por exemplo, do marxismo ao conhecimento que resulta da sua própria experiência pessoal no âmbito da mística oriental.

Neste meu primeiro contacto com as propostas de Wilber manifestaram-se algumas dificuldades que levarão tempo a superar. Por um lado, pela diversidade de conceitos que são, para mim, novos (ou que a sua utilização de forma integrada obriga a redefinir) e alguma nomenclatura menos habitual. Por outro lado, como acontece com qualquer nova corrente de pensamento, começam a surgir os “wilberianos” e os “wilberistas” que, discutindo com maior ou menor propriedade as questões, ajudam (é certo) a um melhor entendimento das propostas deste filosofo do nosso tempo mas, ao mesmo tempo, suscitam-me alguma retracção pelo espírito, diria, corporativo com que surgem (alguns, se calhar, mais papistas que o Papa.. outros com muita oportunidade, mas sabemos que do senso de oportunidade ao oportunismo vai um passo... pequeno).

Mas, expostas as ressalvas, a primeira impressão é a de estar em presença de um pensamento que não se pode ignorar, sobretudo nesta área (da ciência das religiões). O primeiro trabalho a que acedi intitula-se “Um Deus Social”, numa tradução brasileira[1], havendo também bastante material acessível na internet.

Não é possível sumariar aqui as propostas de Wilber. Isso resultaria num primeiro vício que este filósofo procura expressamente contrariar: o do reducionismo que resulta quando um conhecimento, válido numa determinada, área é generalizado acriticamente ao todo. Aliás, esse é um dos aspectos interessantes da sua abordagem: é holística mas não aleatória. Elementos diversos devem ser considerados de forma integrada.

Citando um dos autores que hoje se debruçam sobre o pensamento de Wilber, Ao trabalhar em qualquer campo, Wilber simplesmente recua para um nível de abstração no qual as várias abordagens conflitantes concordam entre si. Tomemos como exemplo as grandes tradições religiosas do mundo: Todas concordam que Jesus é Deus? Não. Então, devemos desconsiderar isso. Todas concordam que há um Deus? Isto depende do significado de "Deus". Elas concordam com Deus, se por "Deus" entendemos um Espírito que, em todo os sentidos, é inqualificável, do Vazio do Budismo ao mistério do Divino do Judaísmo? Sim, isto funciona como uma generalização – o que Wilber denomina uma "generalização orientadora" ou "conclusão forte"[2].

Continuando a citar a mesma fonte a respeito do método de Wilber, a ideia geral é simples. Não é discutir qual teórico está certo e qual está errado. Sua ideia é que todos estão basicamente certos e ele deseja entender como pode ser isso. Wilber diz: "Não acredito que a mente humana seja capaz de errar cem por cento. Assim, ao invés de questionar qual abordagem está certa e qual está errada, assumo que cada abordagem é verdadeira mas parcial, e, então, tento visualizar como encaixar essas verdades parciais, como integrá-las – não escolher uma e livrar-me das outras. O pensamento de Wilber é de propensão positiva. Não será, certamente, de validade ilimitada, mas sim historicamente circunstanciada. Todavia, seria bom augúrio se correspondesse ao nosso momento histórico-social.

O método é exposto (pelos estudiosos de Wilber) da seguinte forma: uma vez que Wilber tenha o esquema geral que incorpora o maior número de generalizações orientadoras, então ele usa este esquema para criticar a parcialidade de abordagens mais estreitas, embora haja considerado as verdades básicas dessas abordagens. Ele critica não suas verdades, mas sua natureza parcial.[3]

Wilber segue, assim, uma definição mais ampla do que é "conhecimento científico", englobando nele também o campo de conhecimento abordado pelas religiosidades. Voltando à fonte anteriormente citada, a “ausência de prova não é prova de ausência". Acreditar que a ciência abrange TODA a realidade não é algo realmente científico, porque temos que negar outras formas de experiência humana, como nossos sentimentos de identidade mais profundos. (...). Seguindo três critérios que, para este autor, definem o processo científico: 1. Seguir uma instrução, injunção ou paradigma; 2. Apreender algo sobre esta realidade específica; 3. Comparar nossas descobertas com as dos outros[4], Wilber integra três tipos de conhecimento: o da materialidade perceptível, o dos processos mentais ou sociais e o dos processos espirituais, do conhecimento que apenas pode ser abordado quando experienciado, segundo Wilber, através da meditação.

 

Alexandre B. Weffort



[1] Cultrix, 1987.

[2] Cf. http://www.integralworld.net/pt/science_pt.html

[3] Ib.

[4] Ib.

 

Publicado por Re-ligare às 13:04
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