Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

A PRESENÇA AUSENTE (três): O MEU PASTOR É VIRTUAL

Para quem não segue uma religião, como seu cultor ou crente, mas todas, sem exceção, com a curiosidade afetiva, científica e profunda, cultural e académica, incapaz de ignorar-lhe os pormenores, e a capacidade que possuem, indiscriminadamente, de moldar alguns comportamentos humanos (até à euforia e à excentricidade), a minha experiência mais recente merece ser contada. Deixe-me que lhe diga que, poucos dias antes dessa experiência que vou narrar, me vi confrontado com um anúncio televisivo muito comercial e dinâmico em que uma marca automóvel era comparada à uma divindade.


A marca anunciava que ao sétimo dia de composição criativa-criacionista tinha desembocado na perfeição (se for a ver bem, nenhuma divindade se atreveria a tanto, em especial se analisasse a criação humana, da sua responsabilidade e atrevimento, pobre criação tão distante do que devia ser perfeito mas se mostra incapaz de sê-lo).
Os criativos europeus criaram esta campanha para uma marca alemã. Convém recordar que na Alemanha a Igreja e o Estado são separados, mas há cooperação em várias áreas, principalmente no sector social e não é espantoso, mas ainda destacável que o presidente da Alemanha, o senhor Joachim Gauck, é um pastor luterano, político que teve um papel ativíssimo no processo da reunificação alemã. Se olharmos para outras religiões, uma campanha como esta podia figurar como uma afronta a princípios, crenças, dogmas...


Passando nas televisões – e outros veículos de propagação audiovisual – a referida campanha publicitária pare ter deixado indiferentes os crentes. Não sei também se motivou a compra do carro em questão. A verdade é que motivou a ressalva intelectual de alguns não crentes, e mais não digo.

 

Estava eu a digerir isto quando os acasos da vida me levaram a um acontecimento social sempre pesado e afetivamente incómodo: um funeral.

 

Cheguei à Igreja onde se prestaria a última homenagem a quem partia e a primeira impressão foi impressionante. Construída numa terra de fortes tradições não religiosas, a igreja (católica) era uma peça de cenário sugestivo. No alto de uma elevação, com uma arquitetura fantástica, de grandes portas e janelas rasgadas permitindo ver, de longe, o interior. A igreja no seu esplendor teatral. À noite, o efeito era ainda maior: as luzes projetadas no interior, sobre fiéis e celebrantes, permitiam um espetáculo, mesmo à distância, para quem passasse. Não é um exemplo inédito, mas sendo uma construção recente, apreciei com demora. Todavia, o que se seguiu foi mais intenso.

 

Na capela mortuária, um pastor recebia os presentes. (Na igreja católica, que recebia um funeral protestante). O pastor então convidou os presentes a verem, nos seus telemóveis, os cânticos que ia propor na cerimónia. Podiam, os que que quisessem, descarregar a aplicação que permitia o acesso ao livro de cânticos. Confesso que fiquei um pouco admirado. Como já disse aqui, a linha invisível entre a modernidade e a pós-modernidade quebrou-se com a presença no mundo profano das tecnologias digitais, dos anos 90 até agora com uma rapidez invulgar de implantação e aceitação. Isso permitiu – e promoveu uma mudança de conceito nas relações religiosas com estas tecnologias. A assimilação dos meios tecnológicos aliou o digital e o espiritual. Hoje, o Pastor de cada um está na Internet, as missas e os cultos também.


Da confissão à ideia da vela virtual, a internet acende os crentes, perdoe-se a ousadia da comparação. As redes sociais enchem-se de citações, de salmos, de passagens bíblicas, corânicas, de citações de rabis ou do Talmude, ou de outros livros sagrados.


Distante do Homem e perto do PDF, do Twitter, do Facebook, do Twoo, de todas as formas electrónicas possíveis, há um deus na rede, um pastor virtual, uma salvação, em forma de redes interligadas num conjunto de protocolos padrão, que podem levá-lo do seu computador ao céu da sua vontade.

Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 16:49
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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

A CULTURA QUE NOS REDEFINE - e o Apocalipse

De quando em vez, ocorre-nos o termo apocalipse, apokálypsis, revelação, a propósito de acontecimentos novos, violentos, que alteram o só aparente curso calmo do que nos é contemporâneo. A barbárie ganha terreno. E deixa marcas de sangue e cicatrizes sobre a pele sensível daqueles que torna miseráveis. A Europa conhece bem esse sintoma, emergente nos seus mais nefastos momentos de morte, só nos últimos cento e quinze anos viu duas guerras mundiais, as revoluções russa e iraniana, em 1917 e em 1979, a guerra da Bósnia, os atentados terroristas da Eta, do Ira, dos Baader-Meinhof, das Brigadas Vermelhas, dos separatistas chechenos, entre outros exemplos a que se junta a assustadora escalada da direita e da extrema direita a reocupar estatutos de um poder que julgava perdido e privilégios que a história escrita pelos mais ingénuos considerava destinados a jamais se reabilitarem. A verdade é que a Europa aproveita agora os noticiários oportunos em que os Talibã no Afeganistão e no Paquistão, o Boko Haram na Nigéria, e o Al Shabab no Corno de África, cuja 'ideologia' é apenas o poder político e o dinheiro, fazem esquecer o gérmen da barbárie que sempre alimentou em todo o ocidente e que contagiou todo o globo. A angústia (de uma faceta cultural, assente em valores mais elevados) é a de assistir à emergente nova cultura, desprovida de plataformas, onde o elemento dinâmico é, ao mesmo tempo, o desconsolador: uma deriva propulsionada pelo Eu em direção ao que é insensato, catastrófico, desenfreado, mortal. A Europa viu o seu declínio em muitos espelhos, também na ideia medíocre mais recenete de que é nos mercados que se joga o futuro da civilização, e na austeridade que se amordaça os povos e os assalta, para com o seu dinheiro restaurar bancos falidos por erros de estratégia, de gestão e de ambição política míope e cruel. Um percurso doentio, esquecendo o Homem e os seus valores mais elevados, retirando-lhe o pundonor, a autoestima, a qualidade humana no que tem de mais louvável. As “massas”, convencidas de que a sua força está no desinteresse pelas instituições a que se subordinam – e não na capacidade de transformar as mesmas – passeiam-se pelas sombras moribundas do desencanto.

O poder exercido por muito poucos esmaga todos os outros, que tantos são. E os mais sofridos parecem surpreendentemente gratos apenas por continuarem a sobreviver, e sobreviver não passa da forma anestesiante e nauseante de viver. Expurgado no que tem de essencial, o homem afasta-se da sua cultura, daquela que o tinha como centro, e que levou milénios a evoluir a estádios toleráveis - e permite-se o avanço de formas variadas de manipulação, que tanto podem vir do mais demagogo tribuno ou da estrutura de crença mais enganadora. Em certos momentos do desgaste, alguns pensadores saem à rua para dizer o que pensam da maquinação e do desastre, da ferida aberta do quotidiano. Poucos são os que põem em primeiro plano a cultura – talvez porque ela seja uma casa comum, porém muito indecifrável. No pós-Guerra (em 1948, isto é, no pós-Segunda Grande Guerra), T.S.Eliot escrevia as suas Notes towards the Definition of Culture, as Notas para a Definição de Cultura, onde, no seu estilo conservador, procurava interpretar a Classe e as Elites, a unidade e a diversidade, a seita e o culto, a cultura e a política. O grande falhanço de Eliot esteve então no seu não distanciamento e na aparente pouca densidade da análise, o que constitui um contraste flagrante com outros escritos seus (sobretudo para quem conhece a consistência de toda a sua poesia, essa “superficialidade” era evidente). Genial – denso e genial – enquanto poeta, não é um crítico profundo do social, como não é um politólogo, um sociólogo, um historiador ou um antropólogo. A sua visão – de quase estudo social – “conservadora em política, classicista em literatura e anglo-católica em religião”, é superficial. Esse texto, de 1948, inspirará outro, de George Steiner, em 1971.

Sob o ponto de vista cultural, 1971 assina um dos acontecimentos mais revolucionários da história do homem: a Intel lança o primeiro microprocessador do Mundo. É a condicionante comum mais forte do futuro do homem, até aos nossos dias desgastados. Mas Steiner, alheio ao facto, escreve, ele também, “algumas notas para a redefinição da cultura”, num livro simbolicamente intitulado "No Castelo do Barba Azul". Steiner diz avisadamente que “é possível que o nosso quadro de apocalipse, ainda que tratado com moderação e temperado de ironia, seja perigosamente inflacionista”. É verdade que muito nos entusiasmamos com o catastrofismo e qualquer estudioso da psicossociologia do consumidor aconselha lançar aos títulos da comunicação social os gritinhos histéricos dos infortúnios, os gemidos do drama, da tragédia, do desastre – que tanto encantam a “massa” consumidora, a "opinião pública", sempre facilmente enganada pela opinião publicada. Com certa surpresa, reler o texto de Steiner, aqui e agora, com esta fluência de novos reveses do século XXI, conduz-nos à perplexidade interpretativa. Steiner afirma que “Não é o passado literal que nos governa, exceto, talvez numa acepção biológica. São as imagens do passado: com frequência tão intensamente estruturadas e tão imperativas como os mitos. As imagens e as construções simbólicas do passado, encontram-se impressas, quase à maneira de informações genéticas, na nossa sensibilidade”. Porém, talvez não sejam, como pensava Comte, os mortos, mas sim as suas imagens, a governar os vivos. É a ideia de cultura que outros adiante recuperarão, a cultura como um sistema de significação realizado, um sistema social caracterizado por formas padronizadas de comunicação. É também a tentativa de mobilização total do indivíduo pelo óbvio, que alguns autores sugerem, mas que nos inquieta vivamente.

Mas se Steiner afirmava, à época, que “cada época histórica se contempla no quadro e na mitologia ativa do seu próprio passado ou de um passado tomado de empréstimo a outras culturas”, a verdade é que presenciamos a emergência de gerações sem memória cultivada, sem referenciais humanos, sem o orgulho da prova da sua identidade. Gerações que facilmente desvalorizam o valor da vida humana e matam pelo único prazer de se sentirem vivos.

A cultura foi sempre entendida como o repositório chave dos valores culturais e das significações. Sem eles, sem esses valores, o plano inclinado da qualidade leva-nos do caos a uma espessa lama aniquiladora. Não sejamos perigosamente inflacionistas. Empunhemos só aquilo em que acreditamos, usando-o para a redefinição, mas sobretudo como criação da força da resistência onde nos defendamos do apocalipse, isto é de qualquer revelação, que se oponha àquilo que nos faz melhores e mais humanos.

Alexandre Honrado
Publicado por Re-ligare às 17:28
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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2014

Natal, naTAO

Feliz Natal

Feliz naTAO

feliz é aquele(a)

que vive no Tao

 

Natal é Cristo

naTao é Buda

Natal é nascer

naTao é re-nascer.

 

Nas-cer

Renas-ser

 

Ser um

Em Cristo, em Buda

 

menino Jesus, menino Sidarta

menino você, menina você

 

todos somos crianças.

 

Quando é que vamos aprender?

 

Aprender a ser

Apreender

Empreender

Entender

 

Que Tao, em chinês

Virou Théos, em grego

Deus, em português.

 

Daí a reverência:

namas, em sânscrito

 

Deus em mim

Saúda Deus em Ti.

 

Namas, vem de namo, em páli.

Eu me refugio

na partícula

Buda

na partícula

Deus

que existe em mim

que existe em você,

no outro, no próximo.

 

E se Ele, está, é

tão perto, tão próximo

por que o tornamos tão longe?

 

A solução?

 

Todos os dias no Tao

todo dia é Natal

dia de florescer

a parte boa que existe em mim

a parte boa que existe em você.

 

Feliz Ano Novo também !

Se nascemos a todo instante

A cada momento surge um novo ano

uma nova oportunidade

de ser feliz.

 

Feliz Natal

Feliz tudo de bom

Feliz tudo de Buda

Feliz tudo de Cristo

 

Feliz Natal

feliz é você

que vive no Tao.

 

 

ANTONIO CARLOS ROCHA

 

antoniocpbr@ig.com.br

 

Publicado por Re-ligare às 12:38
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Encontro com Manuel Frias Martins

Foi num muito saboroso encontro – mais um – com o Professor Manuel Frias Martins, intelectual que me cativou pela leitura muito antes de conhecê-lo pessoalmente (eu corria o JL à procura dele, e das crítica literária que produzia, nesse Jornal de Letras onde também eu publiquei prosa, numa época que me parece já uma ficção esfumada); foi nesse encontro e pela gentileza de me oferecer dois livros seus, que revi uma frase inexplicavelmente perdida na minha memória. Manuel Frias Martins citou-a, em livro, e transcrevo-a agora: “o Reino de Deus é alcançado pela violência”.          

A frase inquieta alguns – não me incluo, pois sou de uma formação onde os reinos pouco cabem e as inquietações vêm sempre dos meus pares e nunca daqueles que nos transcendem– e é de um filósofo político, Thomas Hobbes (1588-1679). Não há coincidências – mas no mesmo dia da oferta do livro e do reler da frase, num alfarrabista de Santa Catarina, vi na montra o Leviatã (de 1651, do mesmo Hobbes).

Quem lia as tirinhas de banda desenhada de um dos nossos jornais diários – onde, pensando bem, noutra época eu também publiquei prosa -,da autoria do norte-americano Bill Watterson, conhece as histórias do irrequieto Calvin (Calvino) e do tigre Hobbes, tigre de pelúcia que, produto do imaginário, materializa-se de acordo com os requisitos da ação que emerge do fantasioso Calvin, menino com ansiedades de adulto, sendo inseparáveis companheiros de inquietação e desventuras.

Calvin – homenagem a Calvino, cristão suíço-francês, da Picardia, que teve papel fundamental na Reforma Protestante – e Hobbes, que observava a natureza humana e a necessidade de governos e sociedades. No estado natural, enquanto que alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros, nenhum se ergue tão acima dos demais por forma a estar além do medo de que outro homem lhe possa fazer mal. Por isso, cada um de nós tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma guerra constante de todos contra todos (Bellum omnia omnes). No entanto, os homens têm um desejo, que é também em interesse próprio, de acabar com a guerra, e por isso formam sociedades entrando num contrato social.

João Calvino, que viveu entre 1509 e 1564 e discorria acerca da depravação total do homem e acerca da predestinação e Thomas Hobbes, autor da célebre frase “O homem é lobo do homem”- ou seja, cada homem é predador de seu próximo. Thomas possuía uma visão obscura e pessimista da humanidade (visão que o tigre da banda desenhada compartilha). Mas Calvino via o homem obscuro a cada passo.

Manuel Frias Martins num dos livros que me ofereceu – As Trevas Inocentes - explica tudo isto bem melhor do que eu, que apenas recolho sentimentalmente algumas frases que ele me inspirou. E não havendo coincidências, pensar que tudo isto se passou quando os talibãs afegãos condenavam publicamente o atentado perpetrado, pelos talibãs paquistaneses, contra uma escola do vizinho Paquistão, afirmando que matar crianças inocentes vai contra os princípios do Islão. Não havendo coincidências, fico aqui ao canto a pensar no que ressalta da violência. Do que ela ensina. Do que contem e do dela pode extrair-se. A Paz não seria entendida sem o conflito que a motiva e gera. A violência e o sagrado (Frias Martins cita o título de René Girar que usa a mesma expressão) estiveram sempre na mesma antecâmara, na mesma sala ritual, à mesma distância – por ventura uma legitima o outro e vice versa. A história mostra o que Hobbes escreveu: “o Reino de Deus é alcançado pela violência”. Mesmo sabendo que esse patamar é propriedade da utopia. Como o da paz – que é um estádio em que os homens convivem provisoriamente apaziguados com os seus conflitos.

                  

 Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 14:26
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

Para Uma Consciência do Som

 

Há bem pouco tempo, a humanidade descobriu que as partículas do átomo de oxigénio protões e neutrões, vibram numa escala melódica maior, que os talos dos cereais que crescem, cantam cada um a sua própria canção e que todos ressoam num uníssono harmonioso; também ficámos a saber que ao processar-se a fotossíntese se ouvem trítonos e que a sexualidade é um fenómeno musical...

Até à pouco, o tempo e a matéria, eram os alicerces do conhecimento, sendo mesuráveis, avaliáveis e previsíveis.

Hoje os físicos estão diante de destroços. Uma das poucas certezas de que dispomos, é que o mundo é som, ritmo e vibração.

As descobertas da ciência moderna e as ideias desenvolvidas em vários movimentos sociais estão a mudar radicalmente a nossa visão do mundo. Lentamente uma nova perspetiva da realidade surge e esta será o alicerce futuro das ciências, da filosofia, da tecnologia e da economia – Este novo paradigma é uma visão holística do mundo.

Há que mudar o conceito de estrutura para o de ritmo a fim de que consigamos obter uma descrição coerente da realidade, capaz de integrar as descobertas mais recentes da física e das ciências da vida...Em todo o universo há padrões rítmicos - O mundo é som!

Desde o entrelaçamento dos padrões rítmicos da comunicação humana, das vibrações das moléculas e dos átomos, até aos “ritmos estáticos” dos cristais, aos padrões regulares dos organismos vivos, até à geometria sagrada presente em código nas grandes catedrais europeias; Tudo obedece à lei da harmonia musical.

Mas o padrão universal dinâmico, não consiste somente em vibração, ele vibra em proporções harmónicas.

Por entre biliões de vibrações possíveis, o universo opta com visível predileção, por aquelas poucas mil que têm um sentido harmónico.

Porquê?

A maioria de nós não percebe que o mundo existe de forma independente; para sermos mais precisos, somos nós que o criamos com os nossos processos de cognição e de perceção. No caso de organismos diversos, como as plantas, estes processos diferem, uma vez que dispõe de órgãos de perceção diferentes, o que os leva à criação de mundos próprios.

A compreensão de que o mudo é som, tem atualmente implicações profundas, refletindo-se, não somente na ciência e na filosofia, como ainda na nossa convivência quotidiana e sobretudo incidindo na nossa sociedade.

Se observarmos a palavra convivência, cuja raiz etimológica é constituída por dois elementos importantes, o prefixo “com” de origem latina “cum” e a raiz “vivência”. Este prefixo serve para marcar uma variedade de relações entre diferentes indivíduos ou situações. Por conseguinte “com” não é usado num contexto de singularidade pois o seu propósito é estabelecer relações com alguém, sendo pelo menos necessárias duas pessoas para que “com” tenha sentido. Assim a preposição adquire o seu sentido na medida em que serve para unir e não para separar elementos diferentes. Isto conduz-nos à ideia de conjunto, de companhia. É o passar da vivência explorativa para a vivência ecológica, assente na noção de cuidar do outro.

Desde há séculos que o ocidente coloca uma ênfase exagerada na visão, em detrimento da audição. Na atual mudança de paradigma, é urgente incluir uma modificação consciente e essencial dessa ênfase, que se deverá conduzir da visão para a audição.

Esta modificação “dos olhos para os ouvidos”, coincide com uma mudança de valores: dos masculinos, ou seja da cognição pela visão para os femininos, o que significa dizer para a cognição pela audição, que tantas vezes tem sido associada à nossa transformação cultural, refletindo-se da análise para a síntese, do conhecimento racional para a sabedoria intuitiva, do domínio e da agressividade para a não-violência e para a paz...

As pessoas desta geração, conhecem intuitivamente a vibração e o som. Este é um sinal do processo de consciencialização que ocorre nos dias em que vivemos. A presença desta nova consciência é sentida mesmo por aqueles que a recusam.

Nesta época em que a humanidade gasta milhões por minuto para a sua possível extinção, pode-se prever o fim de todos nós. E é essa a nossa experiência: seja o que for que a humanidade possa fazer – acaba por realiza-lo! Antes, somente as pessoas intuitivas sabiam disto, agora quase todos os sabem.

Encarar a verdadeira situação do mundo, é psiquicamente insuportável...

Embora esta seja uma afirmação polémica, o facto é que o raciocínio científico está diretamente relacionado com as graves ameaças à humanidade. Contudo não é possível dentro das diretrizes essenciais da ciência moderna, criar soluções eficazes para eliminação destas ameaças.

Enquanto isto, o fantasma da ingovernabilidade surgiu nos países industrializados, sendo que hoje alguns deles têm problemas maiores que os do 3º mundo. Mas se só uma nova consciência é capaz de nos libertar, isso significa dizer que, não podemos modificar o mundo a menos que nos modifiquemos, pois nós somos (o) mundo! Qualquer outro caminho é absurdo.

Tudo o que se modificou profundamente, mudou 1º na consciência de cada ser humano. Só depois é que isso se refletiu na transformação em que vive a coletividade humana. – Sabemos que tudo é um, de tal forma que o nosso intelecto pode compreende-lo ao mesmo tempo científica, matemática e experimentalmente.

Muito se tem falado sobre a nova consciência, mas, ainda não foi mencionado em nenhum lugar que há uma consciência das pessoas que ouvem. Nelas o som audível é mais importante que o som visível. Nelas os olhos não têm predomínio em relação aos ouvidos, pelo contrário, predominam sobre aqueles.

A pessoa que vê, analisa, separa as coisas em partes. O homem da visão acumulou de tal sorte a racionalidade que hoje estamos a assistir à sua ruína. Na era da televisão as pessoas que só veem, deixam-se conduzir, ad absurdum.

O símbolo dos ouvidos, é a concha que também simboliza o órgão sexual feminino – símbolo de recetividade e aconchego. No homem que ouve, a vida não é analisada, é aceite como um todo, ela é a realidade que está aí.

Os ouvidos têm a sua perceção mais apurada que os olhos e o tato. Os orientais consideravam os olhos um órgão Yang e os ouvidos um órgão Yin.

Para este o todo é mais importante que as partes, a síntese mais importante que a análise. Os inter-relacionamentos mais importantes que a especialização. O homem moderno perdeu-se devido à hipertrofia da audição. Não dá mais ouvidos ao divino em si. O âmbito da visão é a superfície, o da audição é a profundidade. A pessoa que ouve tem mais oportunidade de aprofundar-se do que aquela que vê.

Urge pois reaprender a ver corretamente. No mundo ocidental existe desde o mundo grego e o Renascimento, a tradição do culto aos olhos, à luz, à visão; mas nada no mundo se compara àquilo que se refere à audição. A profunda modificação da consciência somente será uma realidade quando aprendermos a usar inteiramente o nosso sentido da audição, pois só assim corrigiremos a hipertrofia de que temos sido vitimas. Como disse Goetheos olhos do espírito têm de ver em uníssono com os olhos físicos, caso contrário, há o risco de ficarmos a olhar e, no entanto as coisas passarem despercebidas

  1. Porque é que a evolução diferenciou com tanto cuidado o nosso sentido da audição?
  2. Porque é que ela ocultou aqui a capacidade de avaliação?
  3. Porque é que nesta evolução se oculta ao mesmo tempo, a capacidade da transcendência e, acima de tudo, a capacidade do equilíbrio?
  4. Porque é que os dados que recebemos pelos ouvidos são mais exatos que os da visão?
  5. Porque é que o alcance do que podemos ouvir é 10 vezes maior do que o que podemos ver?
  6. Porque é que os homens não dão atenção ao que dizem as mulheres?
  7. Porque è que as vozes femininas são mais agudas que as masculinos?
  8. Porque motivo a ciência convencional ignorou o facto de que na natureza as vozes agudas têm uma função de liderança?
  9. Os instrumentos de tonalidade mais aguda (violinos, flautas, etc.) tocam a melodia, enquanto que os de tonalidade mais grave (violoncelos, baixos, trombones, tubas) em geral tocam o acompanhamento?
  10. Estes só podem ser considerados instrumentos melódicos, quando os mais agudos se mantêm em silêncio.
  11. O que é que tudo isto nos diz...?
  12. Porque é que o mundo científico dominado pelos homens, deixou de ver, deixou de “ouvir” estas questões?

Numa coleção de koans do Zen de 1783 o monge japonês Genro, de Quito diz “Uma doutrina que ignora a vida quotidiana, não é uma verdadeira doutrina”

No nosso ouvido há um templo, naqueles que ouvem a Alma viverá.

O som, ou a correnteza da consciência, é mais certo do que o Tempo e a Matéria...

“Se você anular os seus sentidos e o som, o que é que você ouve?”

 

Danuia Pereira Leite

 

Referências Bibliográficas

  • «O Poder Curador da Música», Mcclellan , Randall
  • «Inteligência Emocional», Golman, Daniel
  • «Musicofilia», Sacks, Oliver

 

Publicado por Re-ligare às 11:32
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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014

Um almoço, um planeta, o alvoroço

É bem provável que se saiba que um grupo, aparentemente muito heterogéneo, se reuniu por estes dias num hotel de Lisboa, perto da EXPO, para um simpático almoço de festas (não direi almoço de natal, não tendo a certeza de que todos os presentes festejem a quadra). A verdade é que o evento sentou ombro a ombro, em mesas ricas, líderes espirituais de muitas religiões, desde altos representantes da Igreja Católica, ao líder da comunidade muçulmana em Portugal, a responsáveis de variadas igrejas cristãs, membros da Fé Bahá’í), protestantes, evangélicos, judeus, agnósticos e ateus...

Eu sei que foi assim, pois eu estava sentado numa das mesas.

Este almoço foi possível por estarmos em Portugal, no Portugal de Abril, esse que consagrou – e legislou – liberdades fundamentais para que este almoço – e outras provas de ecumenismo à moda cristã - fosse possível.

A entrada em vigor e progressiva institucionalização da Lei da Liberdade Religiosa de 2001, bem como a Concordata com a Santa Sé e o Estado Português, de 2004, foram momentos marcantes nesse percurso, com algumas diatribes pelo meio, como a negação dos festejos dos feriados religiosos imposta pelo Governo, só para dar um dos exemplos de repressão mais discretos.

A Liberdade Religiosa – a par com a Liberdade de Expressão ou de Opção – é uma das mais nobres com que contamos. É um direito do espírito - palavra que uso a metafisicamente para me referir à consciência ou personalidade. Um direito fundamental. Para quem acredita nisto, limitar alguém nas suas liberdades é uma afronta ao coletivo. Não dar voz a um preso, violentar objetores de consciência, impedir o direito às ideias, individuais e coletivas – são exemplos do que é intolerância, do que é autoritarismo, do que conduz a formas de poder musculadas e excessivas, que conhecemos nas formas dos fascismos da História em várias facetas.

Enquanto o almoço decorria, as televisões mostravam imagens de Sydney onde um sequestro num café terminava com três mortos, sendo o sequestrador abatido pela polícia. A essa, seguia-se outra, sobre o grupo autodenominado "Estado Islâmico”, com a banalização a que levaram as suas crenças. Curiosamente, os temas de conversa, no almoço, passaram por estes exemplos. E pela distância que existe entre pessoas que vivem em liberdade e que respeitam direitos humanos e aquelas que desvalorizam o ser humano e o que ele é, intrinsecamente: um ser de construção e não de destruição. O tema da liberdade religiosa anda hoje em cima das mesas dos que pensam. E ultrapassa já a polémica que esteve presente quando os crucifixos nas salas de aula italianas, em 2009, vieram a título de notícia. Ou quando começaram os atentados de Bagdad e de Alexandria , em 2010, contra a liberdade de culto dos católicos. Ou quando a construção de mesquitas com minaretes foi discutida na Suíça, em 2009. Hoje, a campanha cada vez mais expressiva contra os muçulmanos do mundo está a comprometer a sua liberdade, sabendo como sabemos que os fundamentalistas são apenas uma percentagem ínfima de uma população equivalente a um quarto dos habitantes do mundo. Mas ver algumas generalizações mediáticas sobre imagens de extremismo imbecil, acéfalo, e cobarde, que decapita inocentes para formar um estado de excessos revoltantes, pode conduzir a outros fundamentalismos, implantados nos cérebros dos consumidores dessas mesmas generalizações mediáticas. É como vir a descobrir que todos os australianos são assassinos porque um deles atacou inocentes num café – e matou alguns desses inocentes.

Observar para a Liberdade Religiosa é hoje uma tarefa de todos. Nas nossas escolas, meninos budistas sentam-se ao lado de companheiros hindus, judeus, católicos, muçulmanos. Como nós naquele almoço de festa. Tão diferentes e todavia tão iguais no mesmo prazer de disfrutar uma Liberdade que nos revela como queremos: Humanos. Creio que foi Paul Valéry quem disse que “há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.”

Escrever em momentos de crise, por exemplo. E fazer da Escrita uma bandeira, digo eu.”

 

Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 23:54
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Domingo, 26 de Outubro de 2014

Entre a pobreza e a miséria

 

Participei, da forma mais modesta, na Jornada Internacional pela Erradicação da Pobreza levada a efeito no passado dia 17 de Outubro. Não sei se posso dizer que participei – pois dar a cara, escrever umas linhas, mostrar-me comprometido com o lado social e humano, não chega a ser digno de menção. Pode, ao ler-me, julgar que eu promovo qualquer equívoco, já que o tema não é cingido a Mafra, mas dir-lhe-ei que não só a conexão existe – em Mafra há pobreza, há miséria, há ainda o encapotar da mesma, sob o manto envergonhado de não confessar que se passa por privações graves – como é uma realidade cada vez mais generalizada. Ouvi vários argumentos nessa Jornada e no entanto só registei o eco daqueles que não ouvi. O mundo mudou nos últimos 40 anos. Sim, dos anos 1970 do século passado para agora. Não foi uma mudança nacional – aqui, mesmo assim, a euforia de Abril deu-nos a cor que não tínhamos e depois um futuro que temos vindo a perder, em especial nos últimos 3 anos – mas uma mudança profunda no mundo ocidental. Hoje há conflitos cada vez mais fortes e os mais ferozes são entre ricos e pobres – apesar da aparente calma da nossa sociedade portuguesa, passividade que reflete bem como os mais carenciados não têm voz nem acesso ao poder. Esses conflitos resultam do que se passou nestas quatro décadas: a crueldade progressiva suportada pela maioria das pessoas, numa economia moldada e codificada há décadas para servir o interesse de muito poucos. É todavia um erro pensar que vivemos num país em que, uma a uma, as instituições que eram suporte e esteio da sociedade vão sendo corrompidas, destruídas ou que sofrem uma implosão – é mais acertado dizer que é essa a imagem que estamos a adquirir (e a sofrer) do mundo em geral, sombra daquele que conhecíamos ainda há pouco. Não é um exclusivo nosso, portanto. É pouco – é pobre – brandir apenas um chavão. Por exemplo, o da necessidade de proclamar ilegal a pobreza. As vaias não bastam. Obviamente, sem ir incomodar Karl Marx lá ao seu repouso no Cemitério de Highgate, no Reino Unido, diria que o eco mais forte dos muitos que não ouvi ressoam na expressão luta de classes, que Marx e herdeiros brandiram como sua. A luta de uma classe de trabalhadores (os geradores da riqueza, a classe média) contra aqueles que a destituem e exploram. Uma nova luta, uma velha luta. É dela que resultam os pobres e sem eles não haveria os mais ricos. Outro eco que não ouvi é o da evidência: a recessão económica está ligada à recessão da democracia. Esta última é tão profunda, que há políticos que assumem que nem precisam de ouvir as pessoas – porque não são a sua prioridade. Mas o declarado abandono do interesse público, da responsabilidade e do compromisso com a real democracia por parte de uns é o que deve motivar todos os outros. É que sem as pessoas não se faz nada, nem mesmo a sua pobreza. Precisamos já de um novo modo de vida que não se baseie na maximização do poder de compra, mas na maximização dos valores importantes na vida. E como ainda há o que resta da democracia, ainda temos valores, ideais e sobretudo ainda temos o voto como arma. Não temos de regressar aos mercados mas ao respeito pelas pessoas, ao combate à corrupção e à influência empresarial sobre o destino social. E já agora, outro eco: são os cidadãos os defensores da cidadania.

         

 Alexandre Honrado, investigador e docente da área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona

(texto escrito para o Jornal de Mafra)

      

 

 

Publicado por Re-ligare às 11:10
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