Segunda-feira, 12 de Maio de 2014

A Igreja não é o Papa, mas...

Na história da Igreja e das religiões em geral, há que distinguir a vivência dos crentes em relações de proximidade, das estruturas e/ou líderes que à distância definem e preservam os «cadernos» doutrinários, quando os há. As duas dimensões cruzam-se e legitimam-se num «jogo» de (des)obediências e (des)lealdades. Entre a realidade e a ideia, nem sempre coincidem. Na verdade, raramente coincidem.

 

Se a Igreja não é o Papa, como o Papa não é a Igreja, a manifestação de fé experimentada há uma semana enquadra uma Igreja católica ainda compreensível a partir da cadeira de Pedro. A linguagem mediática, emotiva e consensual, arrasta estereótipos e impõe códigos de compreensão. A comunicação é uma “ciência sagrada”, diz o cardeal de Nova Iorque Timothy Dolan, um comunicador experiente. A popularidade do Papa é determinante para o catolicismo.


As canonizações simultâneas de João Paulo II e João XXIII sustentam esta dependência em relação à figura de um papa comunicador e popular, mas têm uma leitura que vai além do imediato.


Sem um segundo «milagre» a encerrar o processo, a canonização de João XXIII foi uma opção pessoal de Francisco num acentuado processo de humanização do papado, que destaca as virtudes da vida concreta. Impulsionador da modernização da Igreja no século XX, o papa Roncali atravessa cinco décadas para se fazer presente num pontificado empenhado em atualizar a Igreja. Atualizá-la e reconciliá-la consigo própria, pelo conteúdo e não apenas pela imagem.


Não devemos comparar tempos diferentes e diferentes circunstâncias, mas é o papa Francisco que, ao decidir canonizar em simultâneo os dois antecessores, promove a análise comparativa. Independentemente dos trilhos interpretativos, e sem entrarmos na contextualização, a Igreja não teria um João Paulo II, um João Paulo I ou um Paulo VI, se não fosse um João XXIII. É um facto. Como não teria um Bento XVI cerebral e «mal-amado» pela imprensa, se não fosse um João Paulo II emotivo e ultra-mediático.


Cada um destes papas é uma sequência determinada pelas circunstâncias – políticas, religiosas… –, a resposta a um mundo em rápida, desconcertante e permanente mudança nos últimos 50 anos, como se intuía no Concílio Vaticano II, cuja dinâmica é imparável.
Um século marcado pela guerra e por ditaduras, mas também pelas liberdades e pela nova «teologia» dos direitos humanos, produziu papas empenhados na paz e no diálogo.   Ação do Espírito, dirá a tradição. Terá faltado a mesma abertura para o diálogo interno após o Concílio Vaticano II, o salto da prudência para o discernimento.


Não deixa de ser curiosa a notícia da beatificação de Paulo VI. A confirmar-se, é outro momento sem precedentes na história da Igreja de Roma. Três Papas que se cruzaram, elevados aos altares numa mesma geração. Paulo VI foi o papa que conduziu o Concílio Vaticano II – a maior revolução da Igreja no século XX, desencadeada pelo papa João XXIII, agora feito “santo” pela mão de Francisco. Teve um papel político determinante. Foi o primeiro a viajar pelo mundo. O primeiro a visitar Fátima. Recebeu no Vaticano movimentos independentistas de África e apoiou a democracia cristã italiana, de centro-esquerda. Foi também o papa que assinou a encíclica Humanae Vitae, que fixou a rígida doutrina sobre a procriação e a contraceção.


Falta reabilitar João Paulo I, o ousado papa do sorriso e da simplicidade. Teve um pontificado demasiado curto, mas suficiente para lançar uma insanável especulação. Se Francisco correspondeu a uma expectativa. João Paulo I criou essa expectativa. O que seria hoje a Igreja e o mundo se o papa Luciani tivesse tempo?


Vindo de um país marcado pelo totalitarismo soviético, o papa Woytila fez do pontificado um palco estruturante do catolicismo contemporâneo, na defesa da liberdade religiosa e política, da dignidade humana. Com as armas da modernidade, no dealbar das redes, reforçou uma identidade moral, não necessariamente coincidente com a prática dos fiéis. Apesar do «vulcão» mediático, não foi capaz de impedir o acelerado afastamento dos templos e da vida cultual. Cavou-se um fosso entre interpretações doutrinárias e no terreno da experiência de fé, cada vez mais condicionada pelo individualismo. Surgiram divisões, segregações, ergueram-se barreiras e incompreensões à sombra de mecanismos de poder. A resignação do papa Ratzinger é interpretável também neste contexto.

   
Se a Igreja é para o mundo, os desafios que a Igreja enfrenta são os desafios do mundo. Guardião da doutrina e da tradição, mas tendo, por via da secularização, deixado de ser referência exclusiva nas estruturas do pensamento, cada um destes pontificados deve ser lido a partir desta «verdade e consequência»: Os papas são homens com uma história pessoal moldada pela fé, que ao mesmo tempo têm de interagir com as circunstâncias históricas, com os sinais do tempo, de cada tempo.


O sentido da atualização do papa Bergoglio, estará a retomar a intuição – aggiornamento – de João XXIII. Tornar a Igreja mais inclusiva com a dinâmica da misericórdia e elevar o discurso social. Neste sentido, diante de uma Europa politicamente fragilizada, potenciado pela simplicidade e pela coerência, sem uma estratégia mediática convencional, Francisco ocupa um quase vazio. E enquanto tremem alicerces, não falta na Igreja quem faça uso estratégico da espontaneidade do papa argentino, jesuíta de formação. Para o exaltar ou para o diminuir, entre o entusiasmo e a recusa, com mais ou menos subtileza.

 

Por: Joaquim Franco

Jornalista e investigador da Área de Ciência das Religiões

Texto publicado na SIC Online



Sugestões de leitura: Francisco – Vida e Revolução (Esfera dos Livros) de Elisabetta Piqué; D. José Policarpo, uma voz tranquila no palco da democracia (Paulinas) de António Marujo e Jorge Wemans.

Publicado por Re-ligare às 16:25
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Último texto "Insha’Allah“

"Aquele que fala não sabe Aquele que sabe não fala” Lao Tze

 

Quando entrei em contacto com a área da Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, decorria o debate sobre qual seria o termo a utilizar para o nome de um departamento: esoteriologia ou esoterismo. Enquanto o primeiro é uma espécie de “fazer o mapa” o segundo será uma espécie de “percorrer o caminho” e estava aceso o debate sobre qual o termo a usar. Vão compreender o porquê desta introdução. Cedo me propus ir escrevendo uns pequenos ensaios para o blog desta área de estudos da universidade, sobre um tema que por alguma razão me é caro, o Islão. Abeirei-me, portanto desta religião assim “jornalisticamente”, lendo os seus textos, conhecendo os seus praticantes e seus rituais, observando, opinando e muitas vezes, pretensiosamente, julgando ter já algo a dizer sobre o assunto. Assim como quem está à porta da mesquita (e é proibido estar à porta da mesquita), como quem está à porta de um templo, atento e relatando para a linguagem do mundo aquilo que se pressente estar a passar-se lá dentro. Não me cabe ajuizar os desígnios de cada um, neste mundo, mas esta posição de “cientista da religião” não me satisfez, tendo em conta a impetuosa calma do caminho de aniquilação silenciosa que para mim se abriu. E mais do que pressentindo, ou gostando dos aromas do Islão, trata-se daquele “tem de ser”, que compassa a Vida. Entendam este texto como uma despedida da minha curta actividade de filósofo ensaísta esboçada neste blog, ou entendam-no como uma indicação que convida. Percorrer o caminho em silêncio, não como quem guarda o que sabe, mas como quem nem sabe o que sabe, nem decide, nem opina, mas cumpre a Vida. “Mort avant mourir!” (Schuon) portanto, e o horizonte silencioso, para além da ruminante análise da vida, que “foi uma ajuda e que é um entrave” (Aurobindo)

 

Francisco Ferro Lisboa 25-4-2014

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“A avó”. Ensaio humorístico sobre temas sérios.

O ensaio que hoje me proponho aqui apresentar, não sendo filosófico na forma, sê-lo-á, em certa medida, no conteúdo ou pelo menos, na natureza.

Tudo se passou quando eu comecei a dar a entender à minha avó (alentejana, católica, de 82 anos) que eu andava a aprender a praticar Salat (oração ou, mais propriamente “ligação”), junto da comunidade islâmica de Lisboa. Ou seja, segundo a minha avó, a “rezar aquela oração do cú pró ar”. Atenção que estas foram as palavras da minha avó, longe de mim querer denegrir o Salat. Quero expor apenas as ideias feitas sobre as coisas, coisas que, sobretudo em matéria de Religião, vão bem para além das ideias que delas se fazem.

 

Então a minha avó perguntou-me: “Porquê que rezas com esses do Islão? Tu gostas disso? Isso não são aqueles que andam sempre a matar gente? Aqueles que andam sempre em guerra?”

 

Deus é Paz e a Paz vem dele, e que a Paz esteja sobre Gabriel!”

Alcorão I.H. 156

 

Este é o preconceito nº1, o de que os muçulmanos são violentos terroristas, que temos que saber parar, porque é falso. E porque no senso comum, esta ideia circula de forma dogmática e epidémica.

A minha avó não ficou muito preocupada. Infelizmente, as facções violentas da sociedade não se deixam serenar tão facilmente e andam ao gosto destas imagens, destas ideias feitas sobre as coisas.

 

Agora podemos ver um pouco o preconceito nº2. E esse sobre estes dois que nos empenharemos doravante a trabalhar com vista a decompô-los, desenleá-los, desincrustá-los, ameniza-los desfazê-los.

 

Se o Islão fosse machista e se o Islão tratasse mal as mulheres, então como explicar que o Islão faça as muçulmanas tão belas? (“Deus é bonito e ama a beleza” palavras do Profeta, que a paz esteja com ele). Os gestos calmos nos dedos finos, as entoações que são harmonias, a vida reluzente no resguardado olhar e alegria da convivência entre elas, lá no mundo delas. Por favor… “eduquemos” o nosso próprio olhar.

Depois a minha avó foi rezar o terço e eu fui estudar árabe, em salas separadas.

 

 

 Francisco Ferro

 


 

 

 

 

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 16:19
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SINCRETISMO

"El “sincretismo”, entendido en su sentido real, no es más que una simple yuxtaposición de elementos de procedencias diversas, agrupados “desde fuera”, por así decir, sin que ningún principio de orden más profundo venga a unificarlos. Es evidente que un ensamblaje semejante no puede constituir realmente una doctrina, al igual que un montón de piedras no constituye un edificio; y, si a veces da esta impresión a quienes lo consideran superficialmente, esta ilusión no podría resistir a un examen un poco serio. No hay necesidad de ir muy lejos para encontrar auténticos ejemplos de este sincretismo: las modernas falsificaciones de la tradición, como el ocultismo y el teosofismo, no son otra cosa en el fondo; nociones fragmentarias tomadas de diferentes formas tradicionales, y generalmente mal comprendidas y más o menos deformadas, se encuentran mezcladas con concepciones pertenecientes a la filosofía y a la ciencia profana. Ocurre lo mismo con las teorías filosóficas formadas casi exclusivamente de fragmentos de otras teorías, y aquí el sincretismo toma habitualmente el nombre de “eclecticismo”; pero este caso es en suma menos grave que el anterior, ya que no se trata sino de filosofía, es decir, un pensamiento profano que, al menos, no pretende hacerse pasar por algo distinto a lo que es." (Apreciaciones sobre la iniciación. Capítulo VI "Síntesis y sincretismo", René Guénon).

Guénon (1886-1951) fue un escritor de una gran erudición, que intentó recuperar la tradición en el ámbito de la mística y la religión. Para ello dedicó muchos esfuerzos en denunciar el supuesto "sincretismo", que según él, contaminaba el mundo occidental desde finales del siglo XIX. Acusó a ocultistas, teósofos y rosacruces de abandonar la tradición, para construir con retales nuevas doctrinas. Sin embargo, y pese al pretendido rigor desde el que atacaba a estos movimientos, ignoraba que es precisamente el SINCRETISMO el que siempre ha hecho variar las formas religiosas, místicas y filosóficas, y que nunca ha existido una pretendida tradición. Es más, las formas sincréticas devienen tradicionales cuando pierden su espíritu y vigor, transformándose en cáscaras superficiales vacías de toda eficacia espiritual y capacidad transformadora, y muy a menudo son meras herramientas de control del poder religioso o temporal. Pues las verdaderas formas espirituales evolucionan con la humanidad que no cesa de cambiar y con ella sus creencias y doctrinas. Veamos algunos ejemplos de SINCRETISMO "productivo" en la historia de la Humanidad:

1) Tal vez el SINCRETISMO más escandaloso fue el que se dio en el mundo Helenístico, Alejandría, Antioquía, Roma, donde se crearon nuevas formas de religiosidad, nuevas doctrinas espirituales y filosóficas y se gestaron las ciencias, de las que todavía se nutre la cultura occidental. Hermetismo, Gnosticismo, Maniqueísmo, Alquimia, Astrología, Misterios de todo tipo y de todas las procedencias, se dieron en la época imperial helenística. Desde Alejandría se pusieron las bases de la moderna concepción del mundo y de la ciencia.

2) El Cristianismo nace precisamente del contacto de la filosofía griega con el judaísmo. Toda la revelación evangélica se escribió y transmitió en griego, de ahí las palabras griegas "cristiano" o "evangelio", pues utilizando el griego como medio de difusión llegó a todas partes del Imperio una versión helenizada del judaísmo estoico y sapiencial, que tenía la Sinagoga como medio natural. El Cristianismo es el resultado de un sincretismo griego y judío.

3) El Judaísmo por más puro que pretenda ser desde la época talmúdica, tiene en los distintos libros la huella del sincretismo, por el contacto con otras culturas semíticas de su entorno. La literatura sapiencial, por ejemplo, está llena de préstamos de otras culturas antiguas.

4) Egipto y su compleja religión son fruto del sincretismo religioso de diversas ciudades que trajeron al panteón imperial sus propias divinidades. Lo mismo sucedió en Grecia y Roma, ésta última se limitó a adaptar la cultura helénica con algunos elementos etruscos.

5) La Francmasonería occidental superpone elementos de las principales corrientes místicas de nuestra historia, convirtiéndose en el más claro monumento al sincretismo espiritual que ha existido nunca.

6) Pero Oriente no está exento de sincretismos y asimilaciones de este tipo. Buda fue un filósofo upanishádico que obligó a los brahmanes a reinventar constantemente su religión. Pero el propio Budismo debe mucho al contacto con el Helenismo que perduró en los reinos de Bactriana y Gandhara, donde veremos aparecer las primeras imágenes de Buda, al estilo griego. La religión de Krishna, con el Mahabharata como principal instrumento de propaganda, fue una respuesta a la tremenda expansión del Budismo en los siglos III y II a.C.

7) El Hinduismo se ha transformado tanto por el contacto y debate con otras religiones, sobre todo el Budismo, utilizando una técnica muy común: revisar las doctrinas del oponente y ofrecer una versión propia de las misma. Esto puede verse en el Vedanta advaita, que hace lo propio con la metafísica Madhyamaka. La última gran transformación del Hinduismo vino de la mano de Swami Vivekananda, personaje denigrado por Guénon, que vino a presentar una nueva versión del Hinduismo donde asimilaba algunas doctrinas del Cristianismo con las que encontraba afinidad, y que permitieron dar al Neo-hinduismo de Sw. Vivekananda el alcance universal que todavía tienen.

Por tanto, demos siempre la bienvenida al SINCRETISMO, pues es la prueba de que la Humanidad crea y busca nuevas formas de acercarse a la comprensión del misterio de la existencia. Y huyamos de las formas tradicionales, que solo esconden un intento desesperado y rancio de supervivencia de jerarquías, doctrinas y ritos que ya no son capaces de dar respuestas, ni transmitir algo del verdadero Espíritu que empuja al ser humano hacia su transformación interior.

 

Juan Almirall Arnal

 

http://circulodelasabiduria.blogspot.com.es/2014/03/sincretismo.html

Publicado por Re-ligare às 15:32
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O fenómeno da insegurança nas crises capitalistas e os horizontes de expansão do Islão



Vivemos desordenadamente. A sociedade global vai-se tornando mais rígida, em termos legais. Mais leis, mais regras, em mais campos, vão sendo criadas. É exemplo disso toda a lógica financeira, os modos de operar da asae e todas as normas no que toca ao uso das ferramentas da internet. Há mais exemplos, no campo fiscal, no campo da avaliação de professores e alunos, no campo da produção e comercialização de alimentos, etc.


Apesar de se apertarem estas leis e normas e de se irem tornando mais complexas, a desordem prevalece e, em tempos de crise, é até acentuada.
Talvez se acentue por esta tendência para a legislação estar assente em bases erradas. Podemos dizer que o actual sistema é desordenado porque, mesmo havendo recursos, há muita gente que está sendo destituída das bases mínimas de vida, o que não está certo. Quem pode e precisa de trabalho, ou é sujeito a um duro regime ou não consegue e cai borda fora. E quem cai borda fora do mundo laboral (idosos, doentes, incapacitados) está sendo progressivamente abandonado ou expulso, o que não está certo.


Este processo de crise costuma conduzir a avanços de movimentos de extrema-direita (agora o recente fundamentalismo laico). No entanto, esta situação do campo laboral e da base de subsistência faz com que gente sem-abrigo e gente comprando artigos de luxo, ocupem as mesmas ruas das mesmas cidades, segundo critérios arbitrários ou convencionados, e em que cada qual tem que lutar egoisticamente por si próprio contra os outros, que são concorrência no campeonato do sucesso… este processo conduz a enormes estados de ansiedade nas populações vulneráveis, conduzindo depois a acessos de loucura, crimes, consumos de drogas e fenómenos de marginalização e indigência.


Mas leva também a casos de uma genuína indignação e exigência de uma ordem autêntica.


E o Islão é ordem. E não é uma ordem qualquer como o são as ideologias. É código de vida bem ordenada, comunitária, fraterna e religiosa. Por isso veremos, atentos aos sinais do que se passa já em França se o Islão terá ou não, na Europa, um novo horizonte de expansão.
Francisco Ferro 14-04-2014



Publicado por Re-ligare às 13:49
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Sábado, 19 de Abril de 2014

Religião, conflitos e paz na Europa – e as eleições europeias, de que nada sabemos

                

Entre leituras recentes – e a propósito das eleições europeias, que se aproximam e da situação na Ucrânia, que se agiganta como mais uma das faces trágicas do rosto de muitos conflitos do Velho Continente – dei comigo, uma vez mais, a cruzar raciocínios; partilho-os porque convergem na linha de investigação que desenvolvo e porque ao fazê-lo em voz alta sei que não ficarei sozinho.

Tudo começou com a leitura de Pierre Chaunu e Les Temps des Reformes, um clássico. Chaunu ultrapassa a visão de uma Europa saída da batalha sangrenta que opôs a reforma protestante à contra reforma católica para definir, mais atiladamente, todo o período a que chamamos Idade Média, Renascença e Barroco como um único longo tempo de Reformas.  Assim, Chaunu passa por cima das duas reformas – que acabaram por “apaziguar-se”e reconciliar os seus oponentes, que viram quão disparatado era o seu caminho de raiva e dissipação – mas para identificar, sem seu lugar, quatro, a saber: a reforma da Baixa Idade Média (entre os séculos XI e XIV, direi eu: quem se lembra dos goliardos, clérigos pobres, vagabundos, de espírito transgressivo e provocador, e das Carmina Burana, por exemplo?); a protestante (luterana e calvinista); a católica, saída da protestante, por assim dizer; e a dos anabatistas, unitários e outros “heterodoxos”.  A verdade é que a Europa que hoje conhecemos nasce desse mosaico. A própria designação Igreja Católica só aparece com o Concílio de Trento (realizado, com intermitências entre 1545 e 1563) e tem uma nova dimensão, e apenas, no Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965 que, por assim dizer, pôs ponto final à chamada contrarreforma católica. Na Europa, talvez com a exceção da Bósnia e da Herzegovina , a Guerra no século XX deixou de ter um cariz marcadamente religioso ( e mesmo assim, a chamada Guerra da Bósnia começou em 1992 causada por uma combinação complexa de fatores políticos e religiosos: o fervor nacionalista, as crises políticas, sociais e de segurança que se seguiu ao fim da Guerra Fria e a queda do comunismo na antiga Jugoslávia) - e os grande centros cristãos, católicos, ortodoxos ou protestantes, apaziguaram-se com o passar dos tempos e a maturidade dos mesmos. Hoje, por isso, a Europa assiste a um catolicismo dinâmico – com Francisco -, a uma Igreja protestante próspera e aquietada, atenta, na Alemanha, na Suíça, na  Holanda – a uma igreja ortodoxa no coração da crise (na Grécia e na Ucrânia). As igrejas, independentemente das suas confissões, são hoje menos causa e mais reflexo. Na atualidade, são pormenores dos muitos problemas do mundo globalizado. Mas, no Velho Continente, têm características – e comprometimentos sem comparação. O universo católico não se limita ao ramo latino, o mais conhecido. Tem as suas raízes em duas dezenas de Igrejas Católicas Orientais (a Igreja que melhor conhecemos em Portugal é a Católica Romana, também dita Católica Apostólica Romana, uma Igreja que representa cerca de metade de todos os cristãos, que está presente em duas centenas de países e é um dos aspetos das suas culturas). O catolicismo expressa-se em seis diferentes ritos litúrgicos: o latino e cinco orientais. O rito latino é o mais numeroso e predomina no Ocidente, embora com variantes. Nos ritos orientais temos o Caldeu, cujo grupo mais significativo é o dos caldeus malabares, da índia; o Antioqueno cuja força maior residia nos maronitas do Líbano e nos Melquitas da Síria, Líbia, Palestina e diáspora e que nos últimos dois anos sofreram perseguições, matanças e exílios forçados que a História ainda não consegue interpretar. As Igrejas Católicas Caldeias, de que estes grupos fazem parte, pertencem à cristandade Sírio-Oriental, de tradição pré-efesina, com comunidades na Síria e no Iraque, sendo o grupo mais numeroso o da Igreja Sírio-Malabar, na Índia. Curiosamente, estes cristão autodenominam-se Saint Thomas Christians, isto é, reivindicam a herança apostólica de Tomé. Acresce ainda o grupo Alexandrino, maioritariamente de coptas católicos do Egito e os católicos da Etiópia. E ainda o católico armeno, da Arménia, e praticado entre os seus muitos emigrantes, nos demais continentes.

Mas de todos estes e entre os ritos orientais, destaca-se o principal de todos: o Bizantino. A sua base étnico-cultural é formada pelos católicos ucranianos e russos, radicados na Ucrânia ou na diáspora. Estas igrejas são conhecidas como grego-católicas e pertencem ao grupo das Igrejas calcedonianas e são autocéfalas: os Melquitas dos patriarcados de Antioquia, Alexandria e Jerusalém; os Ucranianos do Arcebispado de Lemberg (Lwów para os ploacos, L´viv para os ucranianos e L´vov para os russos), unidos a Roma desde a União de Brest (1596); a Igreja Católica Oriental Romena da Metropolia de Alba Julia; a Igreja Oriental Católica Búlgara do Exarcado Apostólico de Sofia; os grego-católicos da Sérvia, Macedónia e Croácia; os Ítalo-albaneses orientais com diocese na Albânia e no sul de Itália: Lungro (Calábria), Piana (Sicília) e a Abadia Nullius de Grottaferrata; os Ritenos na República Checa e na Eslováquia.

Uma das coisas que mais me surpreendeu no Lavra – Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, Kiev, Ucrânia que visitei várias vezes, em circunstâncias muito diferentes – foi a importância que os russos, tanto ou mais que os ucranianos, lhe davam. A Ucrânia tinha sido um dos centros mais importantes da igreja ortodoxa aquando do grande cisma do ocidente. Foi da Ucrânia que a religião se expandiu para a própria Rússia. E, na Ucrânia, o coração da Igreja Ortodoxa, foi este Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, atualmente no limite urbano de Kiev, a sul da cidade. O mosteiro foi fundado no século XI e é ainda hoje em dia um dos lugares mais santos da igreja ortodoxa. É mesmo o maior lugar de culto e peregrinação da Ucrânia. Terá sido fundado no ano de 1051, por monges que já aqui viviam, em grutas. Estas grutas ainda hoje em dia guardam as sepulturas, que são visitáveis, de monges. Ali se diz: mesmo que os russos deixem o Lavra, onde dia voltarão para o que é seu…

Em suma, nesta Europa em que vivemos, há vários barris de pólvora, guardados. Hoje a política é económica e dos gestores – e não é social nem tão pouco religiosa. Mas os grandes grupos existem, bem como as pequenas etnias. As formas de pensar, de sentir e de agir dos povos ultrapassam sempre os ditames das elites que por momentos as dominam.

É esta a Europa onde estamos. E onde votaremos. Sem a conhecer. (Muitos de nós nunca foram a Espanha e não sabem que a Ucrânia está a poucas horas de avião da sua casa). É esta a Europa, também, que devemos refletir. Se estivermos acordados.

                                       

P.S.- O que aqui fica escrito é uma reflexão. Tem os defeitos inerentes. Quase tudo o que é referido está em livros da História Universal. O livro referido de Pierre Chaunu é  Le Temps des Réformes, Paris, Fayard, 1975, de relativa facilidade de consulta.

                 

Alexandre Honrado

(linha de Investigação em Ciência das Religiões)

Publicado por Re-ligare às 13:07
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Terça-feira, 15 de Abril de 2014

Sobre "O 25 de Abril e a Liberdade Religiosa" - o jantar-tertúlia do Clube de Filosofia Al-Mu'tamid do dia 15 de Abril

Logo após participar num debate com o filósofo André Barata e o ensaísta Miguel Real, e estimulado pelo mesmo, li uma frase exposta pelo primeiro num sítio da Internet que o representa, frase que não só captou a minha atenção como me motivou a revisitação de um trabalho antigo, publicado na revista Philosophica em finais do século passado. A frase citada da página de André Barata é esta “O jogo da filosofia é sempre um jogo insensato. Supor, porém, que não fosse absolutamente sério seria um ultraje. Se não fosse subversivo, irritante e insuportável, Sócrates teria sido simplesmente ridículo”. E o trabalho revisitado é de Félix Duque, da Universidad Autonoma da Madrid. Intitula-se o mesmo “Destruccion de lo Divino” e tem como subtítulo La Tragedia del Absoluto en el Hegel de Jena”. O nexo que me ocorreu entre Barata e Duque só a mim parece evidente. Não só o jogo insensato da Filosofia se destacava no artigo sobre Hegel, como a verdade em Barata me parece interessante: sendo insensato é um jogo sério.  E se não formos subversivos, irritantes e insuportáveis seremos, ao nível das análises que fazemos, tão somente ridículos.  Tendo em conta que, na próxima quinta-feira o tema do mês do jantar-tertúlia do Clube de Filosofia Al-Mu'tamid é "O 25 de Abril e a Liberdade Religiosa" - já no dia 15 (3ª feira), pelas 19h30 na Mesquita de Lisboa.

Terá como oradores: José Vera Jardim (antigo Ministro da Justiça);  Fernando Soares Loja (Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa); e o meu colega Joaquim Franco (como eu, a um tempo jornalista e investigador em Ciência das Religiões) – a  minha pequena reflexão parece-me oportuna pois temas como liberdade religiosa, destruição do divino e a subversão como ato metodológico ferem a atualidade. A Ideologia do Espírito, o Idealismo, as Religiões (ou teses verdadeiramente surpreendentes que resgatam o marxismo ou posicionam como ameaçadoras as novas presenças fundamentalistas da Direita, da Extrema Direita e da sua condenação do Homem e do Humanismo), o próprio Hegel voltam a interessar apaixonadamente quem se dedica a coisas... do pensamento. Uma característica singular do estilo hegeliano é a incrível fusão que por vezes faz convergir a sua escrita em crítica de temas candentes do direito, da política e da religião. O que em Hegel mais nos apaixona é a capacidade ensinar a criticar – a maior parte de nós imite juízos de valor pobres e apaixonados estando assim a uma distância confrangedora do sentido crítico. Distanciando-se de Holderlin e de Schelling, isto é, do contágio frankfurtiano, Hegel desenvolveu o conceito de que a mente (ou espírito) – "Geist" – manifesta-se num conjunto de contradições e oposições que, no final, integram-se e unem-se, sem eliminar qualquer dos polos ou reduzir um ao outro.  É um jogo insensato – e profundamente sério. Como o que se propõe levar a cabo na reflexão em torno de o 25 de Abril e da Liberdade Religiosa, pois o primeiro proporcionou o segundo – e hoje isso parece ser esquecido. A um tempo, nesse evento como noutros do tempo que atravessamos, o raciocínio pedirá o confronto da subversão com o da constatação. A síntese ditará a melhor parte que ficar desse debate, ao gosto, diria eu, hegeliano. Não esqueço que, com o decorrer dos anos, Hegel refugiar-se-á numa razão de volto ao lógico, mas fá-lo para se capaz de suportar os horrores do mundo objectivo. Vivemos os tempos da degradação, pois sofremos a lógica da ação. Como noutros tempos da História que conduziram à morte e à vergonha humana. A Natureza perde a sua oportunidade de redenção, o Espírito a de reconciliação plena consigo mesmo e com o fundo natural; não há puro e absoluto Saber. Não antevemos feliz desenlace. A menos que aprendendo com a História seja possível impedir que ela se repita.


Alexandre Honrado linha de Investigação em Ciência das Religiões (grato a André Barata e a Félix Duque)



Publicado por Re-ligare às 16:11
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